abr
25
Postado em 25-04-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 25-04-2009 00:05

Protesto no STF

ARTIGO DA SEMANA

GUARDIÃO DA JUSTIÇA EM APUROS

Vitor Hugo Soares

Peço permissão aos legionários do “assunto superado” e à “turma do abafa”, para insistir na questão. Acontece que, quando o ministro Joaquim Barbosa acusou seu colega Gilmar Mendes, presidente da Suprema Corte, de estar “destruindo a justiça deste País” e de “comandar capangas em Mato Grosso”, durante o bafafá no STF, confesso que estremeci, ao imaginar que algo muito grave e de insondáveis desdobramentos acontecia diante do olhar pasmo de uma nação inteira.

Em décadas de carreira profissional em redações de jornais, não lembro de ter visto nada parecido com a cena do bate-boca de dois magistrados, transmitida depois pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, para o País inteiro. Salvo, diga-se a bem da verdade, em outro “affair” entre os mesmos contendores, há algum tempo. Aquela, no entanto, parecia inocente disputa de lordes togados, se comparado com o que se viu esta semana, e que o You Tube reproduz agora em vídeos dos mais acessados.

Na hora a memória do jornalista foi projetada para um período da infância na sertaneja cidade baiana de Macururé, cortada pela imensa rodovia que liga os estados do Nordeste à região sudeste – a Transnordestina. Então, costumava passar horas na frente de uma pensão de beira de estrada do lugarejo, coalhada de caminhões do tipo “pau-de-arara” parados para a refeição, carregados de retirantes da seca, que iam “tentar a sorte” na construção na São Paulo dos anos 50.

Ali, enquanto parecia brincar, mantinha os ouvidos atentos de garoto para as “histórias de gente adulta”. Da seca, da política, dos governos, dos sonhos dos viajantes, da vida atribulada e aventureira dos motoristas. De vez em quando, alguém revelava um fato ou contava algo de arrepiar, do tipo da briga desta semana no STF. Mesmo depois de tantos anos, lembro de ter escutado alguém comentar na pensão de Dona Lolóia, em seguida a uma dessas narrativas incríveis, apontando para o estirão da rodovia à sua frente: “Uma história dessa se pega um estradão como este, vai longe”!

É esta a sensação que o jornalista preserva quatro dias depois do bate-boca no Supremo, em Brasília, em que pese a inimaginável visão do dia seguinte do presidente do Supremo, guardião da Justiça, esforçando-se ao máximo para passar, de público, a impressão de que nada de grave ou mais preocupante aconteceu. Cercado de câmeras, microfones e gravadores – como um galã de cinema, uma celebridade da política ou do “show business” – segue Gilmar Mendes, sorridente, em marcha (este é o termo) por corredores e saguões do Congresso.

Ar de intrigante superioridade ele vai para uma mais intrigante ainda reunião “sobre Pacto Republicano” com o presidente da Câmara, deputado Michel Temer, ladina raposa do PMDB, mas, ainda assim, também em apuros com o escândalo das passagens aéreas, no qual se esforça no desempenho de duplo papel: magistrado e personagem da farra turística no Congresso. “Raposa em galinheiro”, diria Leonel Brizola.

A vivaz passagem de Mendes rumo ao sofá de Temer passa incômoda e indefinível sensação de espetáculo em reprise. Parece coisa mal ensaiada por assessores ou “gerentes de crises” que andam soltos por aí, tentando a todo custo (e bota custo nisso) livrar a cara de chefe ou patrocinador em aperto. No caminho, o presidente do Supremo aproveita as amáveis câmeras e microfones ao seu dispor para passar o recado que traz no bolso do colete: “Está superado. Não há crise, não há arranhão. O tribunal tem trabalhado muito bem. Nós temos resultados expressivos. Vocês podem avaliar que a imagem do Judiciário é a melhor possível”, proclama. OK, “quem tem boca diz o que quer”, ensinam os mais antigos, lição que o presidente do STF parece ter decorado como poucos.

Em Buenos Aires, na Casa Rosada, antes do almoço com a colega Cristina Kirchner, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também fala sobre o episódio. Manda mensagem cifrada do Rio da Prata para Brasília e fica difícil saber se ele atua como bombeiro ou incendiário. “Foi uma troca de acusações verbais, se desentenderam, trocaram palavras duras um com o outro. Mas longe de ser uma crise institucional porque duas pessoas divergiram e não se entenderam. Se fosse assim, não teria mais jogo de futebol, porque tem briga em campo todo santo dia”, raciocina o presidente.

OK. Agora imaginem a ministra Dilma Rousseff dizendo na cara do presidente Lula a metade do que o ministro Joaquim Barbosa falou para o mundo inteiro ouvir na frente do presidente do Poder Judiciário. O caso pegou o “estradão” e serão necessárias muitas toneladas de panos quentes para abafar tudo o mais rápido possível, e assim retirar o presidente da suprema corte do apuro dos diabos em que o”guardião da Justiça brasileira” se meteu desta vez.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

marcos siqueira on 25 Abril, 2009 at 12:12 #

o verdadeiro guardião da justiça é Gilmar Mendes.
Requalques e destemperos não combinam com o Supremo.
Assim como o Protógenes ,quem
estiver atrás de ibope que se candidate nas próximas


mariaclara on 25 Abril, 2009 at 12:15 #

as ruas estão cheias de desinformados e manipulados como estes desocupados que em número mínimo foram aparecer em frente ao Supremo. Acordem!


Lena on 25 Abril, 2009 at 12:25 #

A falta de vergonha e de etica tomou proporçoes inimaginaveis…nunca pensei ver nesta vida, tanta falta de carater, de amor proprio, justo em quem deveria dar o exemplo. No inicio, me preocupei,achando que a coisa fosse ficar muito feia; ora, afinal era o presidente do supremo,sendo achincalhado e desmoralizado mesmo,em publico. Que nada e ele ainda quis dar a impressao de que se deram os dedinhos e fizeram as pazes…que credibilidade,agora,nesses homens???


Marcia Dourado on 25 Abril, 2009 at 17:03 #

Assunto dessa natureza não deve ser superada, deve, sim, ser ponto de reflexão sobre o País que temos e o que queremos. A propósito, se tivéssemos mais ministros e jornalistas do “calibre” do Min. Joaquim Barbosa e do autor desse artigo por certo teríamos um Brasil decente.


Mel de Campos on 26 Abril, 2009 at 2:50 #

Cada vez mais estou convencida que só a educação, poderá ajudar na hora maxima da democracia num país: a hora que conscientemente escolhermos nossos governantes e representantes do povo pelo voto.


Marivaldo on 27 Abril, 2009 at 13:20 #

A classe dominante brasileira está repetindo 64: quando o povo começou a reinvindicar e apontar os desmandos de sua elite ela preparou o golpe e reafirmou, cruelmente, o seu poder. Agora, que a sociedade brasileira cobra dos seus atuais dirigentes lisura e quer apurar as falcatruas que ela tem cometido contra a Nação, as instituições conservadoras (estão vendo o que é “conservador”?) reagem e estão tentando mandar para a cadeia ou para o ostracismo aqueles que denunciam os erros, as canalhices e as irregularidades!


Rene Amaral on 27 Abril, 2009 at 13:59 #

Gilmar Dantas é a excrescência da “justiça” brasileira! Devia ter vergonha de sair a rua ou a mídia, mas cara de pau gosta mesmo é de lustra móveis, então…


Sonia on 27 Abril, 2009 at 18:31 #

A CARA de gilmar caiu…com o indiciamento de DD hoje como fica presidente do supremo?rascunhando o proximo HC DO HOMEM?


ricardo santa maria marins on 27 Abril, 2009 at 18:46 #

A diferença existente entre estatística e “está-titica” é a exata medida e diferença entre dados coletados pelo acaso das pesquisas e aplausos públicos! Sendo que: não devemos confundir populismo com aplausos públicos sinceros sinal de popularidade e respeito!
Não! gilmar dantas não é!. O Guardião da Constituição Federal atualmente, é o POVO brasileiro, inspirado por Ulisses Guimarães e não um STF, que tem seis Juízes impedidos de fazer considerações, uma vez que tem vínculos de trabalho e dinheiro envolvido!
Os brasileiros não são desinformados.
Os brasileiros precisam trabalhar e pagar suas contas e todos os demais impostos INJUSTOS cobrados até de forma ILEGAL, porém, regularizada por esses políticos do senado e câmara e avalizados por esse STF de cinco contra seis, onde a maioria vence, e isso não torna o cidadão desinformado! Torna sim, LUDIBRIADO! Por um sistema falido!
Só num País que permite evasão de divisas e coisas mais, sonegação legalizada e tem uma justiça, muda surda e cega e comprometida que permite um verdadeiro bacanal de juro/juros exorbitantes, onde o crédito perde a finalidade a que se propõe, pode se dar ao luxo de ampliar “obrigatoriamente” o número de desocupados!
Há que se pensar: De que tipo de EDUCAÇÃO, estamos falando? Esses Srs.e Sras. do Congresso (câmara e senado) e JUÍZES do STF tem mais que qualificação profissional e escolaridade muito além do necessário. Entretanto, não é o que parece! Talvez a EDUCAÇÃO precise começar em “casa com a família” e não com estranhos e depois, precisamos é educar para a formação do Caráter e Princípios de Moralidade e Ética! Isso parece estar faltando!
Só com “voto” “FACULTATIVO” resolveremos esse problema!
Neste momento sinto que só uma eleição imediata e que exija dos JUIZES do STF, um comportamento MORAL exemplar, resolverá o caso! Entretanto, com a permanência desse presidente à frente do STF, isso não será possível! Demiti-lo por desrespeito ao POVO seria o melhor! Inclusive, para o Brasil e para a JUSTIÇA! Hoje sofremos da falta de Justiça e do direito aplicado em toda a sua inteireza! E, ainda capenga e carente de atualização.


Paulo Gimenes on 27 Abril, 2009 at 20:23 #

Básico: falta coragem aos membros do STF para chamar à ordem seu presidente…

Ele vem infringindo normas básicas, tradicionais, fundamentais e necessárias do direito universal, quando tratamos de estados baseados em procedimentos democráticos… um juiz, o que não deixa de ser, segue certas diretrizes, que no Brasil estão descritas em diversas normas e regulamentos…

Ele vem infringindo quase todas… desde a imparcialidade, até a básica questão de se autoproclamar suspeito, quando envolvido em questões litigiosas a seu cuidado…

Ultrapassa suas atribuições e intervém em outros poderes constituídos, quando a intervenção possível só poderia ser por via consultiva, quando demandado por quem de direito… e, ainda assim, através de um acórdão, em nome do tribunal supremo, nunca em caráter pessoal, como vem fazendo…

Faz-se necessário um bloqueio a tal libertinagem, ou deixaremos de acreditar que seja possível uma proteção à Constituição, quanto mais pelo órgão que mais lhe ofende no momento…


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos