abr
22
Postado em 22-04-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 22-04-2009 13:23

Deu no jornal

Na edição desta quarta-feira (22) da Tribuna na Bahia, o jornalista Ivan de Carvalho, publica em sua coluna um artigo multifacetado. A partir de uma nota publicada na VEJA, mas lida por ele neste Bahia em Pauta, Ivan elabora um texto em que analisa a crise mundial da economia e seus reflexos sobre a indústria do charuto no recôncavo baiano, à beira da extrema unção segundo a revista. O jornalista não se limita ao choro de sempre de empresários. Fala de política, governo, ética,fumantes , fé, e até deste site-blog. Um primor de texto e análise jornalística, que Bahia em Pauta não resiste, e publica na íntegra. Confira.

(Vitor Hugo Soares)

—————————————————————–

Indústria do fumo e extrema unção

Ivan de Carvalho

“Outro assunto teve prioridade, então reservei este para hoje. Por intermédio do excelente blog recém nascido www.bahiaempauta.com.br, do jornalista Vitor Hugo Soares, fiquei sabendo de nota publicada pela revista Veja desta semana, na coluna Holofote, assinada pelo jornalista Fábio Portela. Para não jogar palavras fora, vai logo a íntegra da nota:

Levando fumo – A indústria de fumo no Brasil, baseada na Bahia, está prestes a pedir a extrema unção. Desde fevereiro, as exportações caíram 46% devido à crise global. E, no mercado interno, os produtores não conseguem competir com os similares cubanos. Motivo: não pagam imposto de importação. Enquanto isso, os brasileiros são taxados com 30% do IPI. O presidente do Sindifumo, José Henrique Barreto, faz campanha em Brasília para reduzir pela metade o imposto e ainda tenta negociar um desconto no ICMS com o governo baiano. Sem isso a indústria do fumo negro vai virar fumaça até o fim do ano”.

O blog citado comenta que “isto é, seguramente, tudo o que o governador Jaques Wagner não gostaria de ler na véspera de pegar o avião que o levará na viagem à Índia esta semana”.

Bem, quanto a essa última parte, pouco a dizer. Primeiro, porque o governador já pegou o avião – ou o avião pegou ele e o levou para as índias orientais. Já que nas ocidentais, segundo péssima avaliação dos portugueses e espanhóis do tempo dos descobrimentos, ele já estava – nas Américas.

Segundo, porque o governador naturalmente já leu a nota e é admissível que não haja gostado, seja pela perspectiva de ser cobrado pelo setor fumageiro a negociar a renúncia a uma parte do ICMS, seja porque está em questão um setor econômico que emprega se prospera e desemprega se vai mal, como, aliás, todos os outros.

Mas é admissível também que haja gostado, se atentou para o lado humano da coisa. Porque a indústria de produtos derivados do fumo e a própria cultura do fumo são, por excelência, um negócio da dor e da morte. E o que se pleiteia no momento é que os governos federal e estadual usem os contribuintes em geral – muitos dos quais adoecem e se matam fumando, para não falar do que gastam na compra do veneno – para socorrer essa fábrica de dor e morte, que, de resto, acarreta altos custos para o próprio governo, aumentando as filas e a ocupação de unidades de saúde do SUS.

A única coisa sensata que o governo poderia fazer – e aí seria o governo Lula, não o governo Wagner – seria passar a cobrar um pesado imposto de importação aos concorrentes baianos dos similares cubanos. Mas convenhamos que isso parece bem improvável depois que Lula recebeu de presente caixas e mais caixas de charutos Havana presenteadas por Fidel Castro. E usou, deliciado, o conteúdo, que às vezes o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, segurava discretamente nos palanques para ele.

Para não deixar passar batido, vale tocar ligeiramente numa surpreendente referência da nota publicada na Veja. Aquela, logo no início, segundo a qual “A indústria de fumo no Brasil, baseada na Bahia, está prestes a pedir a extrema unção”. Bem, pedir, pode, afinal cada um pede o que lhe apraz. Mas qual o papa, cardeal, arcebispo, bispo, monsenhor, padre que ministraria a extrema unção à indústria do fumo? Não por falta de misericórdia, claro, mas por falta de tempo: estarão todos ocupadíssimos em administrar este sacramento às vítimas da indústria (e do cultivo) do fumo. Além disso, Deus ama e, pelo menos no arrependimento, perdoa o pecador, no caso, o fumante, mas abomina o pecado.

Sei, sei. Dirão que as coisas não são tão simples assim. A cultura do fumo é tradicional no Recôncavo e a indústria do fumo é fonte de empregos, renda, tributos. Mas também de muitos gastos particulares e governamentais, doença e morte. E certamente não vale aí (como não vale em quase assunto nenhum) o argumento de que se outros não plantarem ou industrializarem o fumo na Bahia ou no Brasil, logo esta bendita omissão será suprida em algum outro lugar do mundo. Ora, que seja, problema do outro lugar. Não é porque alguém irá praticar o mal se pararmos de fazê-lo que devemos continuar a praticá-lo. Onde fica a ética? Um pouco dela, na Bahia, fará bem”.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos