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Postado em 21-04-2009
Arquivado em (Artigos, Laura) por bahiaempauta em 21-04-2009 22:11

ANIVERSÁRIO DE BRASÍLIA

Laura Tonhá

O obvio é sempre mais fácil. Como não gostar de Salvador, uma cidade que escolheu o prazer como símbolo máximo de sua forma de viver, onde todos os sentidos humanos estão sempre estimulados por todas as cores, cheiros, danças e gestos. Como não admirar e ter orgulho de São Paulo com toda sua riqueza e prosperidade, 19ª cidade mais rica do mundo, 14ª cidade mais globalizada do planeta, capital de um estado responsável por 40% do PIB do país. Como não se curvar diante do Cristo Redentor e do charme carioca, como não ser seduzido no Rio de Janeiro, referência e espelho turístico do Brasil no exterior. O obvio meu caro, as razões estão lá explícitas não há como negá-las; difícil é entender Brasília.

A cidade, projetada por Lúcio Costa, durante quatro meses do ano amarga uma seca que faz com que todos os moradores reclamem do clima; apelidada ironicamente de “corte” ou “ilha da fantasia”, é considerada símbolo da corrupção; quase todo mundo que chega reclama que o brasiliense é frio ou “metido”; a cidade é dita “projetada”, porém 80% de seus moradores vivem em cidades satélites que nada têm de projetadas. A  arquitetura, considerada moderna, se traduz em prédios parecidos (quase idênticos) de seis andares cartesianamente distribuídos, e você não enxerga a modernidade.  Um apartamento de 2 quartos, nestes prédios de 6 andares, geometricamente organizados no Plano Piloto, não custa menos de 150 mil reais, quem faz o investimento repete o mantra imobiliário brasiliense “eles vão valorizar”.

Como eu dizia, não é fácil fugir do óbvio, neste caso, falar mal de Brasília. Ainda assim, adepta do “tire suas próprias conclusões” e partidária da crença de que o senso comum é muitas vezes míope, sempre entendi que tudo na vida tem variadas nuances e resulta em diferentes pontos de vista. Londres, por exemplo, carrega uma fama de fria, inóspita e cinzenta, após morar lá, ainda me questiono onde esta essa frieza e este cinza, que eu não percebi na cidade mais efervescente, democrática e cultural em que estive – o que inclui Nova York, Paris e São Paulo, entre outras, só para constar. Visto isto; posto que tudo dependa sempre do “olho de quem vê”, desprezadas as obviedades; paulistana, criada em Salvador, concluo que não haveria porque não lançar um segundo e apurado olhar sobre Brasília.

A quarta maior cidade do país, 49 anos de vida hoje, segundo PIB entre as capitais, é um convite a andar pelas ruas; aqui quase não chove, os bares estão espalhados nas calçadas, as feirinhas, os churrasquinhos, cachorros-quentes estão em toda parte, a cidade ainda é segura para caminhar a vontade qualquer hora do dia; na faixa de pedestre, os veículos vão parar para a sua passagem, fato inédito no resto do país. O barro vermelho nos carros e sapatos é só o resultado da escassez de água, típica do cerrado brasileiro, afinal nem tudo pode ser litoral, contudo a capital possui a maior área verde por habitante do mundo e um céu que ja virou poesia na voz de Djavan.  

Brasília carrega o rótulo de símbolo da corrupção, mas é sempre bom lembrar que alguns políticos, que aqui estão e justificam o “símbolo da corrupção”, foram eleitos por todos nós de cada canto deste país. Ainda assim a capital pode também ser lembrada por abrigar a segunda melhor Universidade do país, a UNB, e, por ser formada majoritariamente por migrantes de outras regiões o que justificaria qualquer distanciamento inicial nas relações sociais, visto que dificilmente encontramos residentes com raízes na cidade, porém, ao contrário do que dizem, nada disso, nem a falta de esquinas impediram a socialização da heterogênea população.

Em Brasília percebe-se que a uniformidade pode agradar tanto quanto a completa desarmonia das formas; que a tranqüilidade não produz apenas tédio, ela é indispensável para sabedoria; que as esquinas – pontos de socialização – são virtuais e estão mais dentro de nós do que em qualquer formato concreto; que o óbvio está disponível para todos, o segundo olhar só para quem se permite.

Parabéns Brasília pelos seus 49 anos!

Por Laura Tonhá, publicitária, há um ano morando em Brasília.

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Comentários

Flora Prateado on 24 Abril, 2009 at 22:35 #

Você foi muito observadora e certamente a cada dia vai descobrir mais encantos nesta cidade acolhedora, de bela arquitetura e de belissimo céu . Parabéns ! Flora


Marcelo Bezerra on 25 Abril, 2009 at 0:03 #

Li seu artigo em referência ao aniversário de Brasília e como sou nascido e criado aqui, sou suspeito em elogiar esta cidade.
Brasília tem problemas igual a qualquer cidade grande e não é só por ser a Capital que pode ser intitulada de “Ilha da Fantasia”. Claro que essa pecha se dá por outros motivos, mas todos que querem depreciá-la a utilizam, sendo que não admitem (ou não querem admitir) que aqueles que fizeram esta cidade ter essa alcunha, incontestavelmente, são oriundos de outros estados da federação.
Gostei muito do que você escreveu e essa “jovem senhora” que ontem completou 49 anos tem muito ainda a oferecer. Óbvio que não posso e não quero comparar épocas, mas o que era o Rio de Janeiro, São Paulo e tantas outras megalópoles quando completaram a mesma idade? Ou seja, Brasília, como você disse, depende do olhar de quem a vê. E torno a repetir, sou demais suspeito em falar, mas nossa cidade tem diversão sim. Nossa cidade não é tediosa. Será que aqueles que dizem isso procuram divertir-se no lugar certo? Será que eles não são tediosos pela própria natureza?
Realmente, você foi muito feliz quando fez a colocação do “olhar”, pois como tudo na vida, as coisas não desenvolvem por elas mesmas e sim por aquilo que podemos fazer para torná-las melhor. Brasília está, cada vez mais, de braços abertos para receber povos de todos os lugares e com isso, encher-nos de uma diversidade cultural e racial digna da verdadeira democracia e do verdadeiro espírito Cristão que tanto desejamos.


Herilckmans on 26 Abril, 2009 at 1:15 #

Li seu artigo e gostei muito da segunda visão sobre Brasília. Já dizem os “candangos” (brasilienses que amam tanto a naturalidade que com orgulho se auto-intitulam ‘candangos’, sem contudo desrespeitar os verdadeiros candangos a quem devem muitos créditos e estão longe de se comparar): Brasília, uma vez aqui, quando gostas, gostarás para sempre e será difícil sair!!!
Belo artigo!!!


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