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Postado em 11-04-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 11-04-2009 00:01

Protógenes na CPI/ Imagem Abril

ARTIGO DA SEMANA

PROTÓGENES:O TOCADOR DE ATABAQUES

*Vitor Hugo Soares

Sei que alguns vão dizer, em tom de reprimenda, que este não é espaço, tempo nem hora para poesias. Ainda assim, peço licença para começar com pedaços de “O Tocador de Atabaques”, do poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, declamado quarta-feira (8), pelo delegado Protógenes Queiroz, antes de iniciar o seu depoimento na chamada CPI dos Grampos, “cujo objeto jurídico é investigar interceptações telefônicas clandestinas”, como o depoente lembrou mais de 70 vezes, nas seis horas de interrogatório – boa parte transmitida ao vivo pelos canais privados Globo News e Band News, e, no final, pela TV Câmara.

Não registro a referência ao poeta de “No caminho, com Maiakóvski” (tão recitado nas universidades e manifestações de resistência pelos jovens nos anos 70), por ser adepto de batuques e percussão pesada. Faço-o por convencimento de que nos versos escolhidos estão as chaves essenciais para entender a estratégia do depoente, assim como a dos promotores da representação na ressuscitada comissão de investigação do Congresso. Se o banqueiro do Grupo Opportunity, Daniel Dantas, for de fato ouvido semana que vem, como anunciado, quem sabe a CPI conseguirá um enterro mais digno?

Cito Eduardo da Costa também por justiça a um dos melhores e mais relegados poetas do País, nascido em Niterói, cidade onde o condutor da Operação Satiagraha – o baiano de Salvador que além de Nossa Senhora de Fátima parece adorar poesia e percussão-, se criou. O poema é mais longo, épico e contundente, mas creio que os versos a seguir são suficientes para bom entendedor.

Declamou o delegado Protógenes: “Querem meu verso de nariz para o ar, / equilibrando a esfera, / enquanto alguém bate com a varinha/ para me por no compasso. / Pedem-me que não seja violento/ e me mantenha equilibrado entre a forma e o fundo, / porque a platéia não deve sofrer emoções fortes… Mas eu, nascido num tempo de sussurros, / tenho a voz contundente / e por mais que me esforce / não sirvo para cantar no coro “…

…”Sei apenas tocar atabaques. /Assim, me perdoem os amantes e os arquitetos dos labirintos. / Que as senhoras se protejam com o xale / e os corações delicados se encostem na parede para fugir às correntes de ar/ Bato no atabaque / até estourar os tímpanos fracos/ e chamo num grito de gozo as almas bravias/ para dançarmos juntos, mordidos pelas mentiras do mundo/ com os nervos envenenados/ e a jugular aos pinotes”…

O condutor da Operação Satiagraha delimitou aí, os campos em que se travaria a seguir o embate da Quarta-Feira Santa. Ah, o depoente não deixou passar em branco o registro emblemático da Paixão e da Páscoa logo de saída. Frisou exemplos de perseguições bíblicas, tentativas de transformar em criminoso e réu, quem tenta mostrar caminhos, ou apuram descaminhos no campo do interesse público – e denunciam a falta de ética e a corrupção das empresas, da política, dos governos. “Hoje o povo enxerga tudo, não existe mais burros no Brasil, como muitos ainda imaginam”, avisou Protógenes.

E a mensagem deve ter tido o sabor de maná para o paladar de cristãos de todos os rincões alcançados pela imagem da TV naquele momento, mas, em especial, deve ter soado como sinfonia pastoral aos ouvidos de grupos e figuras de prestígio da Igreja Católica – o arcebispo de São Paulo, D. Odílio Scherer, por exemplo – que formam a primeira linha da defesa de Protógenes.

Em seis horas do interrogatório da CPI, Protógenes seguiu à risca os versos do poeta fluminense. Não permitiu, em nenhum momento, que – a começar pelo nada isento presidente da comissão, deputado Marcelo Itagiba, e seu sempre oscilante braço direito, o baiano Nelson Perllegrino (relator), que batiam mais insistentemente com a varinha dos amestradores-, o fizessem equilibrar a bolinha com o nariz levantado, como os bem treinados animais de circo.

Não cedeu nem às irônicas e, em geral egocêntricas, provocações do deputado Raul Jungmann (PPS-PE) – escolada raposa política mal disfarçada pela rala penugem de tucano -, que cobrava com insistência que o depoente desse os “nomes aos bois e às manadas, como prometido”. Mas não se diga, por injusto, que o delegado não deu informações relevantes na última quarta-feira. A começar por uma das mais quentes pautas jornalísticas do dia, quando comunicou, que, enquanto ele dava o seu depoimento em Brasília, colegas seus da PF o avisavam de que no Rio de Janeiro ocorria uma batida nas empresas do banqueiro Daniel Dantas, em cumprimento a mandado de busca e apreensão, “para obter os livros fiscais de registro obrigatório da contabilidade do Grupo Opportunity”.

Ofereceu também preciosos detalhes do “Projeto Guarda-Chuva”, elaborado em 1992, com a participação e a assinatura, segundo Protógenes, do hoje ministro Especial para Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, na época advogado de Dantas. O acordo previa a utilização do dinheiro dos fundos de pensão no programa do governo brasileiro de privatizações, principalmente em negócios relacionados com recursos nacionais. Entre estes, a Transposição das águas do Rio São Francisco. Como se vê, fatos e nomes não faltam para quem deseja, de fato, buscar a verdade. E, plagiando a propaganda de uma prefeitura da Bahia: “Quarta-Feira que vem tem mais”. Boa Páscoa!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

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