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Postado em 02-04-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 02-04-2009 18:45

Há uns três anos, mais ou menos, quando editava a página de Opinião de A Tarde, recebi e-mail assinado por Jânio Ferreira Soares. Ele falava sobre um artigo publicado simultaneamente no jornal baiano e no Blog do Noblat, em que eu recordava antigas e marcantes vivências de infância às margens do Rio São Francisco, principalmente na cidade de Santo Antonio da Glória – à qual pertencia o então distrito de Paulo Afonso nos anos 50, época da construção da primeira usina hidrelétrica da CHESF.

Mais que a generosidade das palavras de Jânio, tive a intuição de que por trás daquele e-mail se escondia um cronista especial. Em reposta, comuniquei isso, e pedi a ele um texto para publicação. Modesto, Jânio resistiu um pouco, mas quando mandou o artigo, vibrei. Acertara na mosca: ali estava o primeiro texto de um dos melhores cronistas baianos da nova geração, tão rico em humor e conteúdo quanto os de seu saudoso e famoso conterrâneo Raimundo Reis. Publicado, o artigo foi sucesso imediato, que se repetiria semanalmente no período em que permaneci como editor no jornal baiano. Fico mais feliz ainda em poder publicar agora o primeiro artigo de Jânio no Bahia em Pauta. Estou certo que o sucesso se repetirá. Agora não só por instinto, mas por convicção. Confiram.

(Vitor Hugo Soares)

Panorama de Paulo Afonso

CRONICA DO COTIDIANO

A LUZ DE PAULO AFONSO

Janio Ferreira Soares

No momento em que escrevo este artigo ela ainda desenha caprichosamente seu facho sobre as águas do São Francisco que, talvez agradecido, parece mandar a força exata para fazê-la brilhar no tom. Pena que daqui a pouco começará a amanhecer e aí ela esmaecerá lentamente até apagar de vez ao som dos clicks dos interruptores e das fotocélulas dos postes. Mas, até colocar o ponto final neste artigo ainda dá tempo de curtir as sutilezas da paisagem que diariamente se apresenta na minha janela.

Se ainda estiver escuro e soprar um vento norte, como agora, não seria nenhum exagero dizer que a visão das luzes balançando sobre as águas é quase igual a uma tela de Van Gogh que eu vi um dia, só que acrescida das garças que quase triscam suas asas nas marolas. Já quando entra em cena a calmaria de uma madrugada de verão e as luzes flutuam entre algarobas, canoas e mormaços, a esquadria de alumínio da parede do meu quarto emoldura com perfeição uma imagem que poderia muito bem ter saído do pincel de Claude Monet. Pena que essa brincadeira de faz de conta vai embora assim que o Sol de Graciliano joga na minha cara a dura e seca realidade do sertão.

Para os baianos nascidos antes da década de 50, a chegada da energia elétrica gerada pelo funcionamento da usina Paulo Afonso I foi um verdadeiro acontecimento. Que o diga dona Canô, que num recente depoimento revelou que a coisa que mais a impressionou ao chegar a Salvador, não foi a grandeza da capital, tampouco seu movimento, mas sim o simples gesto de apertar um botão e ver tudo clarear ao seu redor. Igualmente a ela, milhares de nordestinos também ficaram encantados com a novidade, que à época era saudada por muitos como a luz de Paulo Afonso.

Acredito que a turma nascida sob o domínio do mail não tem a menor idéia de como surgiu e nem de onde vêm os milhares de kilowatts que impulsionam os seus orkuts, blogs e baladas. Também acho que a maioria nunca ouviu falar de um moço chamado Delmiro Gouveia, que no começo do século passado percebeu que a beleza e a força das águas da cachoeira de Paulo Afonso poderiam render muito mais do que belos versos de Castro Alves, elogios de Dom Pedro II e exclamações de encantamento de boquiabertos visitantes.

E foi graças ao seu pioneirismo e a incessante luta do engenheiro Apolônio Sales – que comandou uma grande campanha nacional – que nasceu a Chesf, com a finalidade específica de promover o potencial hidrelétrico do rio São Francisco.
Numa recente reunião com centenas de municípios da Bahia onde foram definidas as suas potencialidades, uma senhora quis saber de onde eu era. “Paulo Afonso”, respondi. “E lá tem o quê?”. Olhei para a sala com o ar condicionado perfeito, assim como o som, o projetor e as luzes, e quando ia responder que se um conterrâneo quisesse acabar com aquela festa era só desligar um botão, anunciaram o “coffee break”, que por sinal não estava lá grande coisa.

Jânio Ferreira Soares, escritor, é secretário de Cultura da cidade de Paulo Afonso, nas margens do Rio São Francisco. E-mail: (s.janio@globo.com)

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Comentários

Graça Tonhá on 4 Abril, 2009 at 0:00 #

Janio:

O seu texto encanta pela beleza e sensibilidade. Certamente ” a dura e seca realidade do sertão”, será suavizada com a sua atuação à frente da Secretaria de Cultura. Parabéns e Sucesso!!!
Graça


fabricio feitosa on 4 Maio, 2009 at 11:11 #

Estou muito encantado e orgulhoso pelas sábias e belas frases do conterrâneo Jânio ferreira ( Janinho )Venho também mostrar minha tristeza e indiguinidade pelo desprezo com que nosso município sofre com relação ao governo da Bahia e a própria população da nossa ” capital ” e adjassencias e pelo não reconhecimento deste importante município que é o verdadeiro oasis do SERTÂO .O fato do não reconhecimento´por parte de uma representante de determinado município é a pura realidade , mostrando o descaso com que nosso municipio é tratado em relação a política pública estadual.


Daniel on 17 dezembro, 2010 at 9:05 #

great post, thanks for sharing


luiza on 18 Maio, 2012 at 13:37 #

essa ponte e linda ja tirei foto ai e linda mesmo.luh


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