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Postado em 01-04-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 01-04-2009 18:20

O jornalista Claudio Leal constrói uma crônica saborosa e plena de informações sobre um personagem e uma época da Bahia. O personagem é Nilson de Oliva Cezar, o Pixoxó. “Quem se lembraria deste homem?”, pergunta o jovem jornalista baiano que trabalha atualmente na revista virtual, Terra Magazine, em São Paulo, ao lado de Bob Fernandes. Com pegada profissional e texto de dar inveja a veteranos de dedos calejados nas redações, Leal fala também de uma Bahia e de um País de que pouca gente ainda se lembra . “Jornalista, boêmio, orador, antifascista – esse o Pixoxó domado em seu destempero a partir de 1964, quando as ruas de Salvador começaram a se despovoar da fauna de apaixonados pela ausência de contratos com a vida”, diz Claudo Leal, na crônica exclusiva que escreveu para Bahia em Pauta. Leia. (Vitor Hugo Soares, editor)

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O gaúcho Flores da Cunha/ Arquivo Folha

CRÔNICA SOTEROPOLITANA

FLORES E UISQUES DE PIXOXÓ

*Por Claudio Leal
“Primeiro de abril, mas esse não é o papo. Melhor tocar uma conversa rápida, assim meio jorrada, sobre Nilson de Oliva Cezar, o Pixoxó. Quem se lembrará ainda do homem? Que respondam Waldir Pires, Lomanto Júnior, Fernando Sant’anna, Sebastião Nery. E a memória, sempre traiçoeira, das velhas gazetas.

Jornalista, boêmio, orador antifascista, irmão da atriz Nilda Spencer, “arauto” (como está definido em livro), bebedor afoito – esse o Pixoxó domado em seu destempero a partir de 1964, quando as ruas de Salvador começaram a se despovoar da fauna de apaixonados pela ausência de contratos com a vida.

Morto em 1983, aos 59 anos, permaneceu a folha corrida de histórias saborosas e exuberantes do mundo político e intelectual da Bahia, das apostas nas roletas do Tabaris, onde rolavam os dados do lendário Vadinho, que obteve uma “autorização especial” do Juizado de Menores para o infante amigo frequentar a casa noturna.

“Os bêbados não devem chorar”, ensinou Pixoxó no último encontro com Vadinho, no aeroporto de Congonhas. Mas devem distribuir flores. Conta o poeta Fred de Souza Castro que, após farra no Bar de Zozó, no Cabeça, o jornalista comprou dezenas de rosas e saiu a jogá-las nos pára-brisas dos carros, com amorosa pregação: “Ide e sede felizes”.

Numa das fases do alcoolismo, Pixoxó dormia pelas beiradas da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Da miséria dickensiana, extraía um golpe engenhoso. Paletó amarfanhado, olhos pequenuchos, partia à guerra do café da manhã. Envolvia o pescoço numa toalha e penetrava as cozinhas de hotéis desconhecidos: “Bom dia!… Bom dia!… Bom dia!”, berrava aos garçons e cozinheiros. Nunca se vira um “hóspede” de alegria tão palreira. Tratavam de pôr a mesa. Frutas, pão, café, leite, ovos?

Para cacifar-se junto a Assis Chateaubriand, Pixoxó invadiu a redação da revista O Cruzeiro, minado de álcool, e fez um discurso barroco sobre a Bahia de Ruy Barbosa, Simões Filho e Octávio Mangabeira. Finda a cachoeira verbal, tirou do bolso uma crônica de Antônio Maria, na Última Hora. O compositor escrevera um perfil do baiano que estava à sua frente. Honra! Chatô leu e jogou de lado: “A matéria não o credencia, porque tudo quanto Antônio Maria escreve é ficção”. O boêmio se despediu com uma ameaça: “O senhor verá que eu sou real!”.

Venderia a alma ao diabo – e, pior, a Deus – em troca de um trago. Uma noite, no Rio da década de 40, bebeu todos os proventos, sem saciar o desejo de uísque. Na calçada, uma surpresa: o bravo líder gaúcho Flores da Cunha, ex-revolucionário de 30, entrava num bar. Nilson incorporou o arauto; na má intenção, atravessou a porta: “Salve o general Flores, valoroso guerrilheiro dos heróicos pampas!”.

O deputado federal ordenou que servissem ao admirador anônimo uma dose de uísque. “Só uma?”, reagiu Pixoxó. O bar sorriu. És gaúcho?, replicou o general. “Sou baiano, Excelência, com muita honra, mas amo os pampas e seus valorosos heróis”.

Flores mandou derramar o resto da garrafa”.

Claudio Leal é jornalista. E-mail: claudioleal08@terra.com.br

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