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Postado em 31-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 31-03-2009 10:22

Benício del Toro, el Che na tela

Primeira Crítica/Cinema

CHE, HERÓI E LEGENDA

JC Teixeira Gomes

Se alguém ainda tivesse dúvidas sobre a imponência histórica da figura de Guevara, o filme CHE, de Steven Soderbergh, em exibição em todo o país desde sexta-feira, se encarregaria de dissipá-las. O que ali aparece não é herói idealizado pela visão romântica emoldurada nas camisetas do culto juvenil, mas, sim, o revolucionário de grandeza épica, capaz de superar uma avassaladora asma, agravada na umidade das florestas densas, para combater e expulsar de Cuba uma tirania indigna. O herói asmático que vence suas deficiências respiratórias no inferno selvático é categoria inédita na história universal, e não tem paradigma literário.

O Che aparece no filme em dimensão integral: não apenas o comandante vitorioso movido pelo ímpeto libertário, mas também o intelectual preparado e competente, capaz de desafiar na ONU o poder dos Estados Unidos para fustigar, em análises lúcidas a que não faltava a paixão revolucionária, as mazelas que o capitalismo espalhava pela América Latina. David fustigando Golias em seus redutos de dominação ideológica, com a voz potente dos destituídos tornados indomáveis no confronto com a opressão.

Muitos méritos possui o filme, entre os quais (e talvez o mais destacável) o de mostrar a extrema dificuldade que foi a da luta revolucionária, fato que as imagens revelam com bem maior eloquência que os registros dos livros, por mais candentes que sejam ou tenham sido. Aprendemos coisas que nunca nos haviam mostrado sobre a dureza dos combates. A Revolução Cubana surge na tela como uma saga de bravos que planejavam com competência suas ações, lutando contra um exército repressor e bem aparelhado, e não como um grupo de barbudos improvisados, enaltecidos pelas fantasias do clima hippie dos anos sessenta, misturando revolução com romantismo e maconha.

Para os obstinados fidelistas, o filme traz uma vantagem adicional: mostra como a longa permanência do lider guerrilheiro no poder encontra amparo na magnitude da luta que foi necessária para tomá-lo, contra a idéia de um mero apego caudilhesco, tão ao sabor das tiranias latino-americanas e seus chefes corrompidos. Quem construiu aquele tesouro tinha o direito de preservá-lo. E deixa claro o que os revolucionários a toda hora repetiam, no contexto dos diálogos entre suas lideranças: derrubar Bautista não era perpetrar mais um golpe de Estado, mas, sim, promover uma revolução autêntica. Fato que o absoluto apoio do povo, quando as cidades começaram a ser tomadas, depois da longa e incerta conflagração na Sierra Maestra, prova ter sido a mais compensadora da recompensa aos heróis, o troféu maior para tantos sacrifícios e tantas vidas tombadas.

J.C. Teixeira Gomes, escritor e jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia. É autor dos livros “Glauber, este vulcão”; “Assassinos da Liberdade”(romance), “Memória das Trevas” e “Gregório de Mattos, o Boca de Brasa.”

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Comentários

rosane on 31 Março, 2009 at 10:57 #

Caro Joca,
Bela escrita, epica, glauberiana, barroca, empolgante como as musicas de Wagner que voce adora me conduziu as telas do cinema, cujo filme nao assisti. bjs


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