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Postado em 29-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 29-03-2009 13:20

Ainda no ensejo da passagem dos 460 anos de fundação de cidade, neste 29 de março, o Bahia em Pauta reproduz, a seguir, a entrevista com o poeta e escritor baiano, Fernando da Rocha Peres, feito pelo repórter Claudo Leal, e publicada na revista virtual “Terra Magazine” (http://terramagazine.terra.com.br) do jornalista Bob Fernandes, paulista de nascimento e baiano honorário por opção pessoal e homenagem das mais justas entre as concedidas pela Assembléia Legislativa da Bahia ultimamente. “Inspirado por fel e verbo de Gregório de Matto, Peres “satiriza os desvios da primeira capital brasileira. O historiador da UFBA conhece como poucos as entranhas e desvãos de Salvador – Ou “Salvadolores” como prefere alcunhar a cidade – e sabe do que está falando, como se verá a seguir. (Vitor Hugo Soares, editor)

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Fernando Peres e a destruição de uma cidade

ENTREVISTA/ FERNANDO DA ROCHA PERES

Reporter: Claudio Leal (Terra Magazine)

Inspirado por fel e verbo de Gregório de Mattos, o poeta e historiador baiano Fernando da Rocha Peres satiriza os desvios da primeira capital brasileira, ainda habitada pela “canalha infernal” há séculos maltratada nos poemas do Boca do Inferno. Peres conhece as entranhas de Salvador – ou “Salvadolores”, como prefere alcunhar a cidade que tantas punhaladas lhe deu e dá.

Professor emérito da Universidade Federal da Bahia e ex-diretor do Iphan, ele relança o livro “Memória da Sé”, editado pela Corrupio (www.corrupio.com.br/), com patrocínio da Petrobras. Bem mais que um relato sobre a demolição, em 1933, de uma das jóias do patrimônio histórico brasileiro, a Igreja da Sé, Peres realiza um estudo minucioso da mentalidade urbana no início do século XX, quando houve uma fúria “modernizadora” no Rio de Janeiro e na Bahia.

Sob outra roupagem, essa “fúria” segue a mutilar e destruir marcos referenciais de Salvador, com a demolição de casarios para abrir espaço a espigões, a liberação do gabarito em vários pontos da cidade – o que vai mudar o perfil da urbe colonial -, a devastação de áreas verdes e as ruínas de velhos sobrados. O historiador analisa o avanço do espírito predatório:

– Hoje, há uma classe média em ascensão que faz parte também dessa “canalha infernal”, que gostaria de ver a cidade histórica totalmente destruída, para nela construir edifícios de 30 ou 40 andares. Porque essa nova classe média quer morar olhando o mar, para curar as suas depressões…

Nascido de uma pesquisa acadêmica realizada em 1973, “Memória da Sé” ganhou elogios de Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Pedro Calmon e Pedro Nava. Um dos intelectuais mais atuantes da Geração Mapa, a mesma de Glauber Rocha, Peres compôs um panorama de 21 anos de polêmicas na província.

Escritores e bacharéis protestaram contra o projeto de demolição, aprovado pelo clero e sacramentado pelo arcebispo-primaz do Brasil, o Cardeal da Silva. Em 1933, o templo ruiu, depois de pagamento à Igreja.

Em 2009, o livro recobra atualidade: a Sé foi demolida para dar passagem aos bondes da Companhia Linhas Circular de Carris da Bahia, uma espécie de prenúncio das cidades moldadas pelos automotores.

– Vir a Salvador hoje é uma aventura, como se o sujeito estivesse viajando para um País estranho – critica o escritor.

Estudioso da vida e obra do poeta Gregório de Mattos, Fernando da Rocha Peres é também autor de “Febre Terçã” e “Estranhuras”. A ele o amigo Pedro Nava confiou a edição das cartas recebidas de Mário de Andrade, que deram origem a “Correspondente contumaz”, de 1982.

Confira a entrevista:

Terra Magazine – A reedição de “Memória da Sé” ganha atualidade com o enfraquecimento das políticas públicas para o patrimônio histórico?
Fernando da Rocha Peres – Ganha em atualidade dentro do contexto da política cultural do governo. Todos nós da área sentimos que ela é imensamente fraca e frágil. O governo destina pouquíssimos recursos e não dá nenhuma importância à questão da Cultura no País. Pensa que resolve tudo com a construção de 1 milhão de casas populares. Todos nós sabemos que isto não vai acontecer. O ideal seria se melhorassem o ensino público, melhorassem as condições de saúde da população. Estamos vendo agora o dengue ou a dengue, eu não sei mais, masculino ou feminino… (a Bahia enfrenta uma epidemia de dengue) Se houvesse uma cultura para que isso não ocorresse, ou seja, se a população tivesse o mínimo de conhecimento a respeito do assunto, isto não estaria acontecendo. Se fosse uma população consciente, culturalmente ativa, não aconteceria.

O senhor afirma que os recursos para a Cultura são mínimos, tanto na Bahia como no País em geral. Desse montante, as verbas para o patrimônio são ainda mais diminutas?
Para o patrimônio histórico, eles destinam recursos orçamentários dentro daquele pouco que vai para o Ministério da Cultura. Porque este governo – não só no plano federal, mas também nos governos municipais e estaduais -, não tem uma política cultural consequente. Eles estão preocupados, os governos federal e estaduais, em “interiorizar” a Cultura. E os governos municipais em “favelizar” a cultura. Ou seja, levar a cultura para os grotões do interior – isto não resulta em nada – e levar a cultura para as favelas. Um programa dessa natureza já foi intentado há muitos anos atrás e não houve continuidade. Levar a cultura para a favela requer, principalmente, uma continuidade de governo a governo, para que, consequentemente, as pessoas adquiram cultura e informação suficientes para enfrentar a dengue.

Tem uma confluência com a crise na educação, não?
Crise na educação, crise na economia, crise na saúde, crise na segurança pública, crise em todos os escaninhos dos governos. Não é só lá fora. Não adianta dizer que Obama está carregando um pepino, quando as pessoas aqui já estão fartas de comer abacaxi (risos).

Há paralelos entre a mentalidade da Bahia dos anos 30, quando houve a demolição da Igreja da Sé, e a atual? Como o homem médio encara a preservação do patrimônio? Qual foi o legado desse crime histórico?
Gregório de Mattos, no século XVII, já dizia que a Cidade da Bahia era habitada por uma “canalha infernal”. Em 1933, não melhorou nada. A “canalha infernal” esteve presente. Hoje, há uma classe média em ascensão que faz parte também dessa “canalha infernal”, que gostaria de ver a cidade histórica totalmente destruída, para nela construir edifícios de 30 ou 40 andares. Porque essa nova classe média quer morar olhando o mar, para curar as suas depressões, as suas insatisfações, as suas expectativas irrealizadas.

Salvador vira as costas para o mar? É ocupada por prédios em boa parte de sua costa.
É, vira as costas pro mar, apesar de ser um belo panorama balneário. Mas acontece que as pessoas que vêm para Salvador, os turistas estrangeiros, se queixam que não podem ir à praia porque as praias estão poluídas, estão cheias de ladrões… se queixam que não podem ir ao Pelourinho, porque está tudo infestado de sujeira e de ladroagem… se queixam que a culinária baiana é muito cara, quando não leva o sujeito pra cama com uma diarréia brutal… Então, vir a Salvador hoje é uma aventura, como se o sujeito estivesse viajando para um País estranho.

Para um safári?
Um safári (risos).

Em algum momento, após a demolição da Sé, houve uma conscientização dessa classe média infernal e da classe média intelectualizada?
Sim, é evidente, uma classe média intelectualizada é de doutores. Mas os doutores, como você sabe, hoje estão sendo execrados, não é necessário o indivíduo ser doutor para atingir determinados lugares. Naquela oportunidade, havia uma classe média de intelectuais esclarecidos, que atuaram contra a reforma urbana de Salvador e, consequentemente, contra a demolição de monumentos religiosos, do casario, para a construção da Avenida Sete de Setembro (avenida central e comercial de Salvador). Acontece que, hoje em dia, esses intelectuais perderam aquele fio polêmico, aquela vontade de defender a cidade. Eles querem aproveitar os espaços ainda não habitados para destrui-los, como está ocorrendo com a Paralela (avenida com resquícios de Mata Atlântica em processo de devastação), com o Litoral Norte, que a cada dia se integra mais à cidade, transformando Salvador numa cidade grande e tortuosa. Por isso mesmo eu a denomino de “Salvadolores”.

É uma ocupação predatória?
Predatória. Eles estão desmatando, com muita eficiência, para a construção de condomínios, para a construção de resorts e etc. etc.

As autoridades públicas baianas não têm consciência dessa vocação histórica de Salvador? O prefeito João Henrique foi o grande defensor do PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano), que agradou às empreiteiras por permitir a construção de espigões em vários bairros. E esse lado dos homens públicos que não estão comprometidos com a defesa da cidade?
As autoridades públicas, de um modo geral, são incultas. Se você observar bem, não há nenhum que seja culto. Estamos vendo agora o cenário do Senado Federal, onde há um escritor de um livro famoso chamado “Marimbondos de Fogo”. E ele está atarantado com aquilo que plantou há anos atrás. Agora ele voltou e encontrou a casa de marimbondos pior ainda do que já era.

Há esse declínio na formação do homem público?
… Da incultura do homem público, e não só, também do homem graduado. Dom Clemente Maria da Silva Nigra (monge beneditino já falecido), num pequeno extrato de seu diário, diz que a decisão final para a derrubada da Igreja foi provocada por um “arcebispo inculto e pelos revolucionários incultos” que ocuparam a Bahia em 1933. Bem, o chefe dessa inculta tropa era um cearense chamado Juracy Magalhães, que depois dominou a Bahia durante muitos anos. E o arcebispo era pernambucano.

Dom Augusto, o Cardeal da Silva. Qual foi o papel dele?
Ele foi o grande finalista, digamos assim. Ele chutou o pênalti. Era o Ronaldo de batina.(risos)

O senhor pode situar a importância da Igreja da Sé para a história do Brasil?
A Igreja da Sé começou a ser construída em 1552 pelo bispo Sardinha, que depois foi devorado pelos índios nas costas das Alagoas…

Num memorável jantar…
É, num jantar, evidentemente, muito importante. Daí os portugueses descobriram a “sardinha” em lata… Em seguida, a Sé, depois de começar a ser construída por Thomé de Souza, teve também a contribuição de dois outros governadores, Mem de Sá e Duarte da Costa. Levantou-se essa primeira Sé de pedra e cal. Depois foi passando por transformações. Ocorreram inúmeros fatos históricos. Os holandeses ocuparam a Igreja da Sé, durante a primeira invasão holandesa. Ela serviu de quartel dos holandeses. Os portugueses e os espanhóis expulsaram. Na segunda invasão holandesa, ela também foi bombardeada e, na frente dela, se colocaram canhoneiras, colubrinas, que eram pequenos canhões para rebater os holandeses que estavam na encosta do Carmo, atacando a cidade. Nela Gregório de Mattos e Guerra, o grande poeta, foi da Relação Eclesiástica e Tesoureiro-mor. Nela o Padre Antonio Vieira, diante de Nossa Senhora das Maravilhas, recebeu o “estalo” e ficou inteligente. Quem sabe se as autoridades vierem à Bahia, visitarem o Museu de Arte Sacra e se ajoelharem diante de Nossa Senhora das Maravilhas, não vai haver um estalo geral e irrestrito em suas cabeças! (risos)

Nossa Senhora das Maravilhas ainda resolve?
Não sei. Vamos ver, né?

O setor de patrimônio histórico teve homens como Mário de Andrade e Rodrigo de Mello Franco. E hoje se vê o Iphan concedendo licenças e mais licenças pra construções que agridem o patrimônio. Com a experiência de quem já dirigiu o Iphan, na Bahia dos anos 70, o senhor pode dizer para que ainda servem essas instituições?
Servem para afogar – vejam bem que eu disse “afogar” – o ego dos vaidosos que estão querendo ocupar um cargo e ganhar com isso uma proeminência. Esses também precisam visitar Nossa Senhora das Maravilhas…

Nessa edição nova do “Memória da Sé”, o que mais foi incluído, além desse extrato do diário de Dom Clemente?
Levanto a questão de que, em 1912, Seabra (ex-governador da Bahia) queria derrubar inteiramente o Mosteiro de São Bento e um dos beneditinos reagiu mandando entregar panfletos na rua. Seabra teve que recuar. E o mosteiro está lá. O arcebispo da época, dom Jerônimo Tomé da Silva, não disse nem “ai” nem “ui”, deixou que Seabra continuasse delirando e contribuiu, enormemente, para a demolição de várias igrejas. Isso está numa revista do Mosteiro de São Bento, que eu consegui lá no mosteiro. Outro fato que eu também aponto é um altar da Sé que estava à venda em São Paulo, em 1941. Esse problema estourou na imprensa baiana. Investigou-se e descobriu-se que esta coisa saiu daqui, apesar de um certo controle que, naquela oportunidade, já existia. Mas esse controle era relativo. Dos dois funcionários que faziam esse controle dos objetos de cunho artístico, nas docas – havia uma determinação governamental neste sentido -, um era leigo, outro era padre. Evidentemente, o padre deve ter dito que aquilo não tinha importância, podia sair e saiu. Foi parar em São Paulo pra ser vendido em um antiquário. Saíram muitas coisas das demolições aqui da Bahia para coleções particulares. Não só daqui, mas da América Latina e também da Europa e dos Estados Unidos.

Pra finalizar, como definir a caça da Prefeitura de Salvador às pedras portuguesas?
Vejo isso como uma revanche. É um resgate das autoridades tupinambás. Mestiços de tupinambás querem dessa maneira praticar um canibalismo atrasado, tirando as pedras portuguesas porque não podem assar os portugueses. Assar e comer os portugueses! Por isso, ultimamente, nas praias de Salvador, só os pinguins têm a liberdade e os carinhos necessários (risos).

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Comentários

bahiaflaneur on 22 Abril, 2009 at 14:37 #

melhor ler aqui, para depois opinar…. risos… BF.


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