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Postado em 27-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 27-03-2009 09:47

A revista eletrônica Terra Magazine, de Bob Fernandes, publica hoje um texto do escritor e jornalista baiano João Carlos Teixeira Gomes ( atualmente exilado no Rio de Janeiro) para o qual só existe uma definição:”Magistral”. Editor-Chefe do Jornal da Bahia, em sua fase de ouro e de combate, Joca é também o principal biógrafo do cineasta Glauber Rocha, desde a publicação do livro “Glauber, este vulcão”. Com o título “Diários nordestinos de Glauber” , o escritor relata no Terra Magazine a sua incrível viagem com o cineasta em gestação aos sertões do Nordeste, que começou com um desastre surrealista do ônibus em que os dois viajavam, dirigido por um “motorista cego”.

Do texto de Teixeira Gomes – uma aula de literatura e jornalismo – Bahia em Pauta selecinou um trecho no qual o escritor descreve a chegada a Penedo (AL), cidade histórica com jeito de paraíso, às margens do Rio São Francisco. Uma celebração ao texto primoroso de Joca e alerta mais que atual sobre as ameças que cercam o Velho Chico da unidade nacional nesta Semana da Água.

Leia texto integral (imperdível) no Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br)

(Por Vitor Hugo Soares0

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Penedo:pedaço do paraíso às margens do Velho Chico

l958 – Penedo e o êxtase

“Finalmente, a emoção do São Francisco, longas águas invioláveis e barrentas, infestadas de piranhas. A frágil barcaça nos conduzia para as terras de Alagoas. A bela cidade de Penedo resplandecia, encarapitada no alto de uma elevação que a transformava numa construção imponente e misteriosa. Ladeiras estreitas, velhas igrejas, um clima barroco patente em prédios escurecidos, pátina mágica, pelo tempo. Encantamento das coisas perdidas, das súbitas revelações, das transcendências poéticas que emergem das coisas simples e inesperadas. Um alto momento do áspero percurso, compensando a aflição dos intermináveis estirões bravios e poeirentos, marcados por ostensivo abandono e em cujo percurso a vida se esgarça nas sensações mais precárias, soma de nadas, diluição do imprevisível, valhacouto do espanto. Glauber irrompeu pela cidade como um tufão, fez amizades, ensaiou poemas, projetou tomadas. À noite, exaustos, encharcamo-nos, sôfregos, da bendita cachaça alagoana, e sentamos à beira do tenebroso rio para conversar, discutir sobre o sentido da vida, do amor e da amizade, o mistério das mulheres, os rumos do Brasil e do mundo, as projeções da cultura, os planos do cinema, da literatura e do jornalismo. Recitamos os amados poetas. Glauber modulava os versos de “Infância”, de Paulo Mendes Campos, sempre repetidos: “À noite, arquiteturas corrompidas…”.. Os russos brilhavam no espaço sideral com seus surpreendentes engenhos, inventando estrelas. A arrogância tecnológica americana fora ultrapassada. Glauber, sempre loquaz, entusiasmava-se com as realizações do comunismo pós-stalinisita, enaltecia os sputiniks, antevia o fim do chicote e da exploração do homem pelo homem, sonhava alto. Éramos radicalmente democratas, até à subversão. A Rússia, a grande vitoriosa da guerra contra o Eixo fascista com seu imbatível Exército, era uma magnífica potência industrial, lembrava ele, elogiando o caminho dos astronautas pelas rotas das estrelas. E metíamos as mãos pelas águas do insondável e trevoso São Francisco, até que um tropeiro de voz aguda advertiu: “Piranhas!” “Piranhas!”

João Carlos Teixeira Gomes – escritor e jornalista

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