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Postado em 18-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 18-03-2009 17:52

COMENTÁRIO

PROPAGANDA E HOMOFOBIA

Laura Tonhá

Continua a polêmica envolvendo a campanha publicitária do salgadinho Doritos, da Elma Chips, lançada no último dia 8 em canais de TV aberta e paga. A primeira reação veio da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais) que pediu ao Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), no dia 13, que retirasse do ar a campanha alegando “evidências claras de disseminação do preconceito contra homossexuais com roupagem bem-humorada”.

O Conar informou que a solicitação foi encaminhada para um relator e que, se houver pedido de liminar para suspender a propaganda, a decisão será cumprida.

Esta semana o You Tube, site onde o vídeo é muito acessado, também recebeu uma denúncia, feita por Roberto Warken, consultor voluntário do Instituto Arco-Íris de Santa Catarina, apontando o vídeo como indutor à homofobia.

No último dia 16, a PepsiCo, proprietária da marca Elma Chips, enviou comunicado reiterando que a “diversidade e a inclusão” fazem parte dos valores defendidos pela companhia e que “nunca aceitaria o risco de veicular qualquer mensagem discriminatória, muito menos ofensiva a qualquer público, e desrespeitar os homossexuais seria inaceitável tanto para a Pepsico quanto para sua agência de propaganda, a AlmapBBDO”. O argumento da empresa é que a campanha do salgadinho quer mostrar “como é gostoso consumir Doritos entre amigos”. Leia comunicado completo aqui.

A questão é a ambiguidade, a mensagem subliminar, o vídeo não é explicitamente homófobico, porém abre margem para discussão. Vídeos publicitários são feitos minuciosamente, 30 segundos pensados e repensados, cada detalhe escolhido a dedo. Vamos aos fatos, em um dos VTs da campanha, a música é YMCA, da banda Village People, o garoto ouve a música, começa a dançar e os amigos estranham e lançam olhares recriminatórios para ele.

Village People é uma banda disco norte-americana. O grupo surgiu em boates gays nos EUA, nos fins dos anos 70, o nome escolhido é uma referência ao reduto gay de Nova Iorque na época, o Greenwich Village, e a banda ficou conhecida por apresentar-se com fantasias que evocavam símbolos de “masculinidade”: policial, índio norte-americano, cowboy, carpinteiro, soldado e motociclista. O grupo, assumidamente homossexual, ficou famoso cantando “Macho macho man, I’ve got to be a macho man”. Resumindo, quando se pensa em Village People se pensa em “gay”.

Ainda no comercial durante a dança, os movimentos, o desmunhecar de mãos, podem também fazer referência à classe citada. O comercial finaliza com um pacote do salgadinho lançado no rosto do garoto e o locutor dizendo “Se você quer dividir alguma coisa, divida um Doritos”. O “quer dividir alguma coisa” pode ser interpretado como “quer sair do armário”.

Algumas interpretações e a defesa da campanha, dizem que o garoto do comercial é reprimido pelos amigos porque a música e a dancinha são bregas, porém, antes de ser brega, a música é de uma banda imediatamente identificada como homossexual e a dancinha tem trejeitos “duvidosos”.

A ambigüidade sutil, pode passar despercebida, se o telespectador não tiver essas informações, mas você acredita que estes detalhes passaram incólumes pelo publicitário criador? Qual a mensagem por trás da repressão ao garoto dançando Village People?

Nem tudo que parece ser é, uma das máximas da publicidade. Outra diz que a propaganda deve atingir o íntimo de quem assiste e não quem a pessoa aparenta ser, para tanto, não é necessário ser explícito ou politicamente correto.

Segue um dos vídeos da campanha para suas próprias conclusões.

Laura Tonhá é publicitária, especialista em Comunicação Empresarial.

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