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Postado em 15-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 15-03-2009 15:00

O recente desembarque, na Casa Branca, do presidente Barack Obama, um afro-americano que chegou ao cume do poder, na mais poderosa nação do planeta pelo voto popular, parece um momento ideal para, nos Estados Unidos como no resto do mundo, se repensar a sempre polêmica questão das raças. É isto o que propõe o jornalista Irineu Ramos (pós-graduado em História e mestre em Comunicação), no texto que segue. “Afinal, para que serve a discriminação das pessoas por origem racial? A quem interessa essa divisão”?, questiona Irineu no artigo “O Planeta da Raça Humana”, com o qual o jornalista inicia etapa de colaboração com este site-blog, que Bahia em Pauta espera seja prolongada e profícua. Benvindo.

(Vitor Hugo Soares, editor)

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OPINIÃO

O planeta da raça humana

Irineu Ramos

Neste início de 2009 o mundo teve a oportunidade de dar início à construção de um planeta onde todos os homens pertençam a uma única raça. Com a chegada de Barak Obama, um afro-americano, ao topo do poder político do país mais poderoso do mundo é a hora de repensarmos a tão propalada, discutida e dolorida questão das raças.

Afinal, para que serve a discriminação das pessoas por origem racial? A quem interessa essa divisão? Sigo a opinião defendida por vários autores ligados aos estudos culturais e às correntes filosóficas mais arrojadas, como Stuart Hall (um jamaicano, negro, radicado na Inglaterra), Zigmunt Bauman (um judeu polonês, também radicado na Inglaterra) e Michel Foucault (francês, considerado um dos maiores filósofos pós-estruturalista do século XX), que apontam a identificação dos indivíduos por cor de pele e características físicas como um ato para sub-julgar e dominar os semelhantes. Somos todos de uma única raça: a Humana. Para estes teóricos, o que nos torna diferentes um dos outros é a nossa cultura e não a coloração da pele.

Do ponto de vista genético nada difere um negro originário do coração da África de um esquimó do Pólo Norte. A antropologia nos mostra que o meio ambiente é responsável pela formação das características físicas do indivíduo. Ou seja, de acordo com a temperatura ambiente, aspectos geográficos e ocorrências climáticas, a aparência física de todos vai se adaptando até ficar totalmente adequada para a sobrevivência naquela região. Nem que para isso sejam necessários 20 mil anos.

Então, qual o motivo que leva muitas pessoas a (des)classificar seus semelhantes utilizando para isso a cor da pele e aspectos físicos? Muito simples. O ato de discriminar estabelece uma relação de poder de um sobre o outro. Fazê-lo por aparência física esconde um tremendo complexo de inferioridade de alguém ou de alguma nação que, para ser alguma coisa, precisa apontar defeitos nos outros. Quando desqualificamos alguém, inconscientemente, outorgamos para nós toda a virtude do objeto qualificado. Desta forma, quando nos referimos, por exemplo, ao casaco de uma pessoa como sendo “feio” dizemos – inconscientemente – que todas a capacidade para qualificar e escolher um casaco “bonito” está conosco. Quando agimos assim sofremos de um problema emocional e não estético. É a hora de procurarmos o divã de um psicólogo.

Na questão étnica é a mesma coisa. Ao apontarmos a origem geográfica, o tom da pele, a cor do cabelo, o traçado dos olhos e a formação física como aspectos negativos de uma pessoa estamos querendo nos sobrepujar a ela. Finalmente, tomamos consciência de que esse tipo de atitude só desagrega e em nada contribui para a construção de uma civilização global para a qual estamos caminhando a longos passos e que não tem retorno.

Para chegar a esta etapa de conhecimento, que a partir de agora começará a influenciar o mundo, foram precisos séculos de dominação de um povo sobre o outro. E nesse jogo de poder não há vítimas ou algozes. Todos os povos, vitimizados ou não, padeceram e se beneficiaram das relações de poder. Mas tudo isso faz parte da História. Nesse momento temos que nos preocupar com o que faremos hoje. Cabe a nós colocarmos em prática os projetos que vão determinar o amanhã, o futuro. Delas iremos nos orgulhar ou nos envergonhar.

Com a ascensão de Barak Obama à presidência dos Estados Unidos o mundo passou a exercitar uma nova forma de relacionamento através de uma estrada onde a cor da pele e a aparência física dão lugar à sabedoria, ao conhecimento, ao caráter e a conduta social. Obama se elegeu pela sua capacidade de administrar conflitos, formação acadêmica invejável e propostas que buscam a conciliação em detrimento da arrogância. O anti-americanismo tão presente em rodas de conversas deu lugar a um novo olhar, sem ódio e sem rancor. Ou seja, os componentes considerados fundamentais para a evolução humana num mundo pós-globalizado.

Irineu Ramos é jornalista, pós-graduado em História e mestre em Comunicação.

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