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Postado em 14-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 14-03-2009 15:04

Quatorze de março. Nesta data, em 1974, a ditadura militar preparava a posse de mais um general para governar o País: Ernesto Geisel. A celebração bem ao estilo de uma época de governos autoritários que grassavam na América Latina, merecia um convidado à altura, e foi trazido do Chile o ditador Augusto Pinoochet. Ele então comandava o regime mais sanguinário do continente e andava em pregação por um um eixo Brasil-Bolívia-Chile-Uruguai.

Mas havia soado o alarme e os organizadores da festa foram surpreendidos em plena dança pela artilharia verbal de um deputado do MDB autêntico da Bahia: Francisco Pinto. No dia 14, da tribuna da Câmara dos Deputado, Chico Pinto fez um discurso para a história da resistência e transformou o parlamentar de feira de Santana em protagonista de um dos episódios mais marcantes da história política e parlamentar do país no último meio século. Chico Pinto denunciou os crimes cometidos por Pinochet após o golpe de Estado contra Salvador Allende, além de repudiar em pronunciamento candente a presença do ditador no Brasil.

É este fato memorável, que hoje faz 35 anos, o tema do artigo que o Bahia em Pauta publica a seguir, de autoria do jornalista baiano, Cláudio Leal, o repórter que fez a última entrevista com Chico Pinto, falecido em 19 de fevereiro de 2008. O texto saiu originalmente na página de Opinião do jornal A Tarde, há dois anos, mas segue atual e candente como a própria história de Chico Pinto.

Por: Vitor Hugo Soares.

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Chico Pinto/ imagem do arquivo de Claudio Leal

Chico Pinto: o profeta de Feira de Santana

Claudio Leal

A posse do general Ernesto Geisel na presidência da República, em março de 1974, podia ser confundida com um amigável encontro de ditadores sul-americanos para uma partida de cartas. De óculos escuros e com aquele ar de quem passa a tropa em revista mesmo quando vai à missa das seis, o ditador chileno Augusto Pinochet era o caçula do clube. Há cerca de seis meses golpeara o socialista Salvador Allende. Para a esquerda brasileira, a presença de Pinochet em Brasília maltratava antigos ideais.

Deputado federal do MDB, ex-prefeito de Feira de Santana, Chico Pinto rompeu o silêncio da oposição. Subiu à tribuna da Câmara, na véspera da posse, e protestou: “Para que não lhe pareça que no Brasil estão todos silenciosos e felizes com sua presença, falo pelos que não podem falar, clamo e protesto por muitos que gostariam de reclamar e gritar nas ruas contra a sua presença em nosso país”.

Chamou o ditador chileno de “assassino”, “mentiroso” e “fascista”. Voz de beato, Pinto se tornava colérico ao microfone. Pertencia à linha dos autênticos do MDB e costumava ser ouvido por militares nacionalistas. Seu discurso deu ao parlamento brasileiro um momento de brilho e insubordinação.

A reação do governo revela o conflito das ditaduras quando são confrontadas com vestígios da democracia. Pressionado pelo presidente Geisel, o ministro da Justiça Armando Falcão representou contra Chico Pinto, com base num artigo obscuro da Lei de Segurança Nacional, que vedava ofensas a chefes de nações estrangeiras.

Nos jornais, Barbosa Lima Sobrinho saiu em sua defesa. Mandato cassado, preso no 1º Batalhão da Polícia Militar de Brasília, foi libertado em abril de 1975. Em 1977, Chico seria absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, por unanimidade.

Há trinta e cinco anos, o ex-deputado baiano denunciou os crimes de Pinochet contra militantes de esquerda. Novos processos provaram que o ex-ditador se envolveu também em esquemas de corrupção. Faltou, portanto, um adjetivo no discurso de Pinto. Bom profeta, sabia que a história diria o resto.

Claudio Leal é Jornalista. Trabalha na revista virtual Terra Magazine (SP)

E-mail: ( claudioleal08@terra.com.br )

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