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Postado em 07-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 07-03-2009 02:37

ARTIGO

Vitor Hugo Soares

Meu glorioso Santo Antônio, eu que acredito piamente em ti, apesar do ceticismo religioso que carrego , respondei-me com algum sinal nesta hora de dúvidas: afinal, meu santo, o que ainda falta acontecer na terra onde, na mesma semana, ressurgem das trevas fantasmas dos quais parecia termo-nos livrado? Há muita gente se fazendo de cego, mudo e surdo por aí, mas o senhor, meu santo, já viu o ex-presidente Fernando Collor de Mello no Senado (ao lado de seu antigo parceiro Renan Calheiros) dando as cartas de novo no poder; e o atual arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso, brandindo a torto e a direito suas medonhas e medievais excomunhões?

Como entender, e principalmente como aceitar passivamente, tanto poder de articulação e de barganhas concentrado outra vez nas mãos de um homem com a ficha pregressa e a arrogância de Collor? Afinal, não faz muito tempo assim, os desvios e desvarios do homem “com aquilo roxo” levantaram uma nação inteira, e uma população em fúria se mobilizou e ocupou praças, ruas e plenários em todas as regiões para expulsa-lo do Palácio do Planalto.

O caso tenebroso do bispo de Pernambuco também clama aos céus. Como silenciar diante de palavras e atitudes de um religioso que, em pleno século XXI, ousa afastar da comunhão da sua igreja todas as pessoas (mãe, familiares e médicos) que tiveram alguma participação ou ajudaram no irrecusável aborto feito em uma menina de apenas nove anos de idade, violentada e engravidada por um monstro adulto, que abusou dela durante anos dentro de casa. Como entender, meu santo?

Já tentei até um mergulho no realismo fantástico do argentino Jorge Luis Borges, para ver se encontro alguma porta de entrada para compreender estes dias. Até reli o conto “Os Teólogos”, nas páginas sempre surpreendentes do livro “O Aleph”, sobre os hunos que ao invadirem uma província, arrasaram jardins, profanaram cálices e altares sagrados e entraram a cavalo na biblioteca monástica, onde rasgaram os livros incompreensíveis e os injuriaram e queimaram. “Talvez com medo de que as letras encobrissem blasfêmias contra seu deus, que era uma cimitarra de ferro”, como assinala o mestre portenho em sua narrativa.

No meio das cinzas da invasão, no entanto, permaneceu quase intacto o livro duodécimo da “Civitas Dei”, onde se revela que Platão ensinou em Atenas que, “no fim dos séculos, todas as coisas recuperarão seu estado anterior, e que ele, em Atenas, frente ao mesmo auditório, de novo ensinará essa doutrina.”. Em sua narrativa, o escritor diz que o texto perdoado pelos bárbaros e pelas chamas gozou de uma veneração especial e os que o leram e releram nessa remota província “esqueceram que o autor só declarou tal doutrina, para poder melhor refuta-la”.

“Os Teólogos” é um conto denso e maravilhosamente surpreendente. Não vou matar a curiosidade dos que ainda não o conhecem, revelando o desfecho da história, pois isso poderia desestimular a deliciosa sensação de uma visita pessoal às palavras de Borges. Chego somente até a parte em que ele fala das heresias daqueles tempos de escuridão da mente e do espírito humanos e assinala, através de um dos personagens, que as heresias que mais devemos temer, “são as que podem confundir-se com a ortodoxia”.

E estamos de volta ao arcebispo Dom José Cardoso, a ortodoxia em pessoa e responsável pelo maior disparate desta semana de absurdos. Retornamos ao bispo das excomunhões, cuja face e palavras deixavam as sacristias de Olinda e Recife e ocupavam, ontem, amplos e valiosos espaços dos jornais, TVs, sites e blogs nacionais e internacionais. “Nenhum motivo justifica a morte de inocentes, mesmo para salvar outra vida. Esta é a lei de Deus e a lei de Deus está acima de todas as leis humanas. Se a lei humana não respeita à lei de Deus, passamos por cima da lei humana”, diz Dom Jose Cardoso, enquanto encara com arrogância, em rede nacional, a câmera do Jornal Nacional.

Lamentável flagrante de desacato à justiça, ao bom senso e à inteligência. Pena e paradoxo maior é que palavras como estas partam da histórica arquidiocese de Olinda e Recife, no ano em que se comemora o centenário de nascimento do saudoso Dom Helder Câmara, símbolo de coragem, sapiência e humanismo no duro tempo de escuridão nacional nos anos em que ele esteve à frente daquele arcebispado pernambucano.

O Dom (assim ouvi seus arquidiocesanos chama-lo da última vez que o cumprimentei quando, durante uma visita a Olinda, o encontrei “à espera de carona”, tranqüilo e parado (apesar das ameaças que sofria ) perto de um poste de iluminação pública, ao pé de uma das muitas ladeiras da cidade. O religioso que dizia: “Quando os problemas se tornam absurdos, os desafios se tornam apaixonantes”.

Obrigado, meu Santo Antônio da Glória, pelo menos por esta lembrança.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail:vitors.h@ig.com.br

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Comentários

Arthur on 8 Março, 2009 at 19:50 #

Bateu forte. Li seu texto sobre Santo Antonio da Glória com o tema Beatriz ao fundo. Vc não imagina o que senti no contraste da beleza da música com as imagens explodidas na memória, pelo seu grande texto. Parabéns, Vitor. Que Santo Antonio da Glória dê a vc muita força pra contiuar.
Arthur


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