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Postado em 03-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 03-03-2009 15:07

Começa hoje(03/03) na cidade de Paulo Afonso (BA), região do Vale do São Francisco,  uma série de eventos comemorativos do centenário de nascimento de Maria Gomes de Olveira, a Maria Bonita, que nasceu em 8 de março de 1911. A primeira programação de eventos termina neste domingo (8), que coincide com a celebração do Dia Interrnacional da Mulher.

O evento, segundo informa a Secretaria de Cultura da cidade baiana, será realizado em conjunto com a Universidade Estadual da Bahia (UNEB)  e tem como objetivo falar da importância da mulher no Cangaço e ao mesmo tempo celebrar uma data duplamente importante, pois Maria Bonita Nasceu no Dia Internacional da Mulher. Ficou famosa ao acompanhar cangaceiros ao lado do insurgente Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, abrir caminho para o ingresso de outras mulheres no movimento, e viver uma das mais belas e pungentes histórias de amor e luta no Nordeste brasileiro.    

Bahia em Pauta não poderia deixar passar em branco uma história tão bonita, além de marcante social e politicamente na vida do Estado e da região. Assim, a partir de hoje, este site-blog vai acompanhar de perto a semana de Maria Bonita e da Mulher, com informação , reflexão, e opinião. Começamos com o texto que segue, uma crônica de Maria das Graças Dourado Cardoso Tonhá, admiradora desde a juventude e conhecedora como poucos da história de vida de Maria Bonita, escrito especialmente para o Bahia em Pauta.

(Vitor Hugo Soares, editor)     

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Maria Bonita: quem é essa mulher?

 

Dia oito de março – dia internacional da mulher – comemora-se também o nascimento daquela que foi considerada a musa do sertão. Primeira mulher a compartilhar o dia a dia do cangaço, Maria Gomes de Oliveira, também conhecida como Maria Déa ou simplesmente Maria Bonita, nasceu numa fazenda em Santa Brígida no interior baiano no ano de 1911.  Filha de pais humildes, que tiveram outros onze filhos, casou-se aos quinze anos com o sapateiro José Miguel da Silva,vulgo Zé Neném. O casal que não teve filhos, alternava momentos de convívio e de separação. Numa destas em 1929 Maria Bonita conheceu Virgulino Ferreira da Silva, o já famoso e temido Lampião, líder do cangaço, no auge dos seus trinta e poucos anos. A paixão recíproca à primeira vista, deu inicio um ano depois, a uma vida em comum curta, mas intensa, marcada pelo companheirismo e amor. Maria integrou-se ao grupo de cangaceiros, aos dezessete anos, abrindo caminho para que outras mulheres se juntassem ao grupo.

 

 Dado curioso aponta para o fato de que mulher cangaceira não cozinhava nem lavava roupas. No acampamento cozinhar e lavar eram tarefas reservadas aos homens. Contam que “elas também só faziam amor, não faziam a guerra”. Entretanto muita coisa tem sido dita e cantada: quem não se recorda dos versinhos: “acorda Maria Bonita, levanta vai fazer café. Que o dia já vem raiando e a policia já está de pé”.

 

 Prefiro acreditar que a musa do sertão foi antes de tudo uma mulher revolucionária, corajosa, valente, decidida, capaz de fazer suas escolhas e seguir em frente sem vacilar. Sedutora devia ter sido mesmo capaz de alterar a vida e hábitos de Lampião, que segundo consta passou a ter momentos cada vez mais longos de repouso e deleite, “sua agressividade se diluía nos braços de Maria Déa, nos fala Mello, pesquisador pernambucano.

 

Considerado o casal mais unido e temido do cangaço, Lampião e Maria Bonita que já foram denominados de “ Bonnie e Clyde do Sertão”,  viveram juntos durante oito anos, (além de três abortos) tiveram uma filha, Expedita, nascida em 1932 e criada de forma anônima por coiteiros. Em 1938, no interior de Sergipe, o casal ao lado de outros cangaceiros, foi brutalmente assasinado. Segundo pesquisa  de Raquel Silveira, Maria Bonita ainda vivia e presenciou quando  Lampião foi degolado e que de acordo com depoimentos dos médicos que realizaram a sua autopsia , Maria Bonita foi degolada viva.

 

A vida deste emblemático casal tem sido amplamente retratada na literatura, cinema, TV. Recordo-me saudosa, quando residindo em São Paulo em 1982, assistia com muito interesse a minissérie “Lampião e Maria Bonita” de Aguinaldo Silva e Doc  Comparato produzida pela TV Globo,  com magnífica interpretação de Nelson Xavier e Tânia Alves nos papeis principais. Além disto, suas reproduções com roupas e adereços usados no cangaço, fazem a festa de turistas nas casas de artesanatos nordestinos. Este ano no carnaval de Recife, casal caracterizado de Lampião e Maria Bonita, desenvolveu ações preventivas da AIDS, através de alertas sobre o uso de preservativos e distribuição de camisinhas para os foliões, numa promoção da ONG GTP+

 

 Este mito de mulher, que ainda suscita magia e mistério é reconhecida como a mulher que amoleceu o coração de pedra do do seu amado cangaceiro. “Em alguns momentos, a intervenção de Maria Bonita impediu vários atos de crueldade de Lampião”, nos conta Rosane Valpatto , no belo texto “A Era do Cangaço”. A trajetoria de Maria Bonita, que soube se impor, sem perder a feminilidade, em tempos  predominantemente  machista, violento e de traições, demonstra a ousadia e liderança desta mulher que não se deixou ofuscar pela figura marcante do Rei do Cangaço, garantindo seu espaço na cultura nordestina como Rainha e Musa do cangaço .Merece destaque, sobretudo quando, na data de seu nascimento,  se comemora também o  Dia Internacional da Mulher.

                                              

 Graça Tonhá

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Comentários

rosane on 3 Março, 2009 at 21:06 #

Gracinha,
Nao sabia do seu interesse pelo assunto. Gostei de ler as informacoes.


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