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Postado em 01-03-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 01-03-2009 14:42

Na busca de um presente para oferecer ao Rio de Janeiro neste 1º de Março de 2009, data em que se comemoram os 444 anos de fundação da Cidade Maravilhosa pelo português Estácio de Sá, fui bater no site Alma Carioca. É uma esquina da Internet  onde só se fala dos encantos – e  alguns desencantos também – do Rio, um lugar singular do planeta, como Veneza, Paris ou Salvador, que, como se costuma dizer, “ninguém tem o direito de morrer sem visitar”.
 
Nesse recanto virtual de louvor ao Rio (www.almacarioca.com.br) encontrei o texto que escrevi para o Blog do Noblat há alguns anos, quando de um de meus retornos à cidade depois de larga ausência. Acho que segue atual e é o que posso oferecer, de coração, à cidade que aniversaria. Dedico o texto também à jornalista Olívia Soares, minha irmã, e a pessoa mais apaixonada pelo Rio que conheço na Bahia.

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Vitor Hugo Soares

Depois de largo afastamento volto ao Rio de Janeiro e a cidade segue sedutora como sempre, apesar das amedrontadoras notícias que sobre ela chegam na Bahia. Nesse quase final de primavera embarco para uma semana dividida entre o trabalho de julgador de primeira viagem do Prêmio Esso de Jornalismo e o gozo do visitante saudoso. “Minha alma canta”, como na música de Tom, quando sobrevôo a Baia de Guanabara. No chão, entretanto, as primeiras impressões deste novembro no Rio me abatem.

 E isso nada tem a ver com certas peripécias políticas – e muitas malandragens – do pregador Anthony Garotinho, primeiro-cavalheiro da corte fluminense, em seu esforço protestante para viabilizar-se como candidato a sucessão do presidente Lula. A insatisfação também não decorre do desempenho administrativo do prefeito blogueiro do PFL, Cesar Maia. Afinal, ele reduziu o seu tempo de navegante na Internet para olhar e cuidar melhor da cidade.

A decepção tem motivo afetivo. De amor – talvez seja esta a expressão mais exata para o caso – a uma instituição do Rio, tão apaixonante quanto o meu tricolor das Laranjeiras: o Jornal do Brasil, a que estive vinculado durante quase duas décadas, desde o processo de reforma tocado por Alberto Dines. Rememoro enquanto o táxi que me leva do Aeroporto para Ipanema roda pela pista da Avenida Brasil.

Na altura do bairro de São Cristóvão, na suburbana zona norte, bem à minha frente vejo o monumental edifício-sede do JB. Construção erguida a peso de vultosos empréstimos em dólares, no tempo do “milagre brasileiro” operado na ditadura militar pelo czar da economia de então, Delfim Neto, atual parlamentar do PMDB-SP e espadachim na defesa da política econômica do ministro Palocci. O prédio abrigou o jornal durante 29 anos, tempo suficiente para praticamente servir de sepultura a uma mais que centenária legenda da imprensa brasileira.

Obrigada a pagar as milionárias dívidas contraídas em tempo de baixa irreal do dólar, a empresa se descapitalizou. Veio então a asfixia financeira, sofregamente enfrentada com a venda das rádios AM e FM. A queda no precipício começou em 2002, no arrendamento por 60 anos do que restava do grupo, com o jornal incluído no pacote, e o abandono do prédio. O JB retornou, agora como inquilino, à antiga sede da Avenida Rio Branco, onde purga o restante dos seus pecados.

Inúmeras vezes, andei na sede da Avenida Brasil 500 como ovelha desgarrada de Salvador para participar de reuniões de planejamento de coberturas com alcance nacional: da Política, da Geral, da Economia, do Esporte. Sou testemunha ocular do vigor e euforia – às vezes, tensão à flor da pele – que percorriam todas as editorias do jornal como fagulha elétrica.O entusiasmo começava na proprietária do JB, a Condessa Pereira Carneiro.

Como esquecer das reuniões de pauta, das idéias e debates da cobertura estimulados em diferentes fases por profissionais como Carlos Castelo Branco (Castelinho), João Saldanha, Sandro Moreira, Juarez Bahia, Zózimo Barroso do Amaral e Felix de Athayde, entre tantos que se foram. Ou por Paulo Henrique Amorim, Zuenir Ventura, Artur Xexéo, Ricardo Noblat, Marcos Sá Correia, Hélio Gáspari, Walder de Góes, Carlos Lemos, Hedyl Vale, Renato Machado, Xico Vargas, Beatriz Bonfim, Mirian Leitão, entre tantos que ainda aí estão espalhados por outras redações, ou no próprio JB como Evandro Teixeira e Rogério Reis, que revejo nesta viagem. Sem falar da Rádio JB: Ana Maria Machado – hoje imortal da ABL- e o incansável Procópio Mineiro à frente.

Na passagem, a visão do estrago, mesmo a distancia, dói fundo. O prédio do JB virou um edifício-fantasma de nove andares na entrada da cidade. Abandonado, várias vezes saqueado e depredado, os sem-teto levaram móveis, divisórias, portas e janelas.Os objetos de cobre mais valiosos foram vendidos como sucata por R$ 8 o quilo e o alumínio a R$ 6. Atento, o motorista do táxi percebe as lágrimas e se espanta. “O ar do Rio continua com essa poluição insuportável!”, minto. O educado taxista finge acreditar na desculpa, mesmo diante do límpido e ensolarado dia que faz.

E chego a Ipanema em pleno meio dia, cercado da luminosidade e das garotas de lá, que desfilam, patinam no calçadão do Pier e se bronzeiam na praia que o poeta Vinícius de Morais, a Bossa Nova e o desbunde dos anos 60 e 70 consagraram. Para fruição e delírio de americanos, argentinos, italianos, portugueses e paulistas embasbacados que agora disputam espaços na areia com os nativos e aderentes e lotam hotéis, bares e lojas.

Depois vem Copacabana e o Cine Roxy restaurado, onde assisto ao belo e pungente documentário “Vinícius, 10 anos”, de Miguel Farias Jr. O coração fica leve outra vez e a alma volta a cantar. Agradeço, então, ao poetinha e à Bossa Nova por esse reencontro de saudade e esperança com o Rio de Janeiro.

Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do site-blog Bahia em Pauta

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Comentários

olivia on 2 Março, 2009 at 12:28 #

Belíssimo artigo, Belíssima homenagem. Amo, adoro o Rio de Janeiro.


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