É delicado o estado de saúde da cantora argentina Mercedes Sosa, internada na unidade de tratamento intensivo de um hospital de Buenos Aires, depois de ter sido acometida de pneumonia, acompanhada de um processo severo de desidratação, segundo os médicos que assistem a artista de voz poderosa, que ocupa um dos patamares mais elevados da música na América Latina. ”Minha mãe tem os pulmões tomados e está muito desidratada”, informou Fabian Marcus, o filho de “La Negra”, como Mercedes é carinhosamente chamada em seu país. Mas ela segue resistindo, pois esta tem sido uma das marcas maiores de sua vida. Esta noite, além de cruzar as mãos em pedidos, vamos cantar com ela “Solo le pido a Dios” (Só peço a Deus) e confiar, firmemente, no restabelecimento desta imensa cantora e mulher sul-americana.
(Vitor Hugo Soares)
O mundo dos navegantes na Internet e de usuários de computadores em geral entrou em alerta. A partir dos primeiros minutos desta quarta-feira ronda no ar o perigo da invasão dos computadores pela última versão do vírus “Conficker”, também chamado de “Downadup”, ou simplesmente “Kido”, que se ativa no 1º de Abril, o “dia dos inocentes” nos paises anglo-saxões, ou “dia da mentira” nos países da América Latina.
Em razão disso, governos e empresas de segurança permanecerão em alerta nas próximas horas, temerosos das conseqüências do vírus, ainda não totalmente claras e conhecidas. De acordo com especialistas americanos e europeus, no momento “a perigosidade do vírus é baixa”, mas sua capacidade de expansão é enorme.
O Conficker está programado para conectar-se a 500 endereços de Internet de uma relação de 50.000, a partir da data mencionada. O Kido é capaz de esquivar-se da maioria dos antivírus comerciais, apagar as atualizações automáticas da Microsoft, além de bloquear também as atualizações dos antivírus.
A altíssima capacidade de difusão por quase todas as versões de Windows, até 15 milhões de ordenadores, segundo a BBC, fez com que a Microsoft chegasse a oferecer até 250 mil dólares pela ”cabeça” do vírus, que se propaga tanto pela Rede como através de dispositivos USB.
A partir de agora, portanto, todo cuidado é pouco. A recomendação do blog europeu Infospyware, especialista em ameaças informáticas, a recomendação é contar com um antivírus atualizado, manter o Windows em dia… e ter sorte.
(Vitor Hugo Soares)
Harmonia em Massachusetts/ Foto Rosane Santana

*Rosane Santana escreve :
VIDA REAL-O antigo e o novo convivem harmonicamente em Massachusetts, onde começou a história dos Estados Unidos, desde a Revolução Americana de 1776, que influenciou o resto da América, tendo Boston como Banker Hill. No detalhe, foto da torre do City Hall (Prefeitura) de Worcester, segunda maior cidade do estado, ex-capital de Massachusetts. A primavera se anuncia no céu de azul límpido, apesar de temperaturas ainda baixas, embora o clima seja de tristeza com a crise americana. Mas que ninguém se engane, sobretudo aqueles movidos pelo antiamericanismo: “As Vinhas da Ira”, (clássico da literatura, de autoria de John Steinbeck) uma saga da Depressão dos anos 30, como ocorre agora, aclamada na literatura e no cinema, como lembra o renomado historiador John Lukacs, mostrou norte-americanos dos mais pobres, os Okie, migrando para o Oeste em automoveis. É isso ai, a realidade evoluiu para melhor: em plena crise, é posssível adquirir um Cadilac, Buick, Linconl e Mustang, em perfeito estado, por apenas $ 5 mil. E isso faz a festa dos imigrantes latinos, que preferem o tsunami de Obama à marolinha de Lula.
Rosane Santana, jornalista, mora em Boston (EUA)
Mercedes Sosa em recente turnê

Depois de suspender, na semana passada, o espetáculo de apresentação de seu novo disco, “Cantora”, em razão de uma gripe, a famosa intérprete argentina Mercedes Sosa, 73 anos, foi internada ontem no Sanatório de La Trindad, em Buenos Aires, com pneumonia e desidratação. A notícia sobre o agravamento do estado de saúde da mais popular cantora argentina, das últimas três décadas, foi confirmada hoje pela gravadora da artista, a Sony Music.
Em dezembro do ano passado, Mercedes Sosa esteve na Bahia e se apresentou no memorável espetáculo “Canto Geral”, realizado no Teatro Castro Alves, de Salvador, que marcou a agenda cultural da reunião de cúpula dos chefes de Estado do Mercosul, no balneário de Sauípe, litoral norte. “La Negra”, como é carinhosamente chamada em seu país, se apresentou ao lado do baiano Carlinhos Brown e alguns dos maiores músicos e intérpretes da América Latina.
PNEUMONIA PREOCUPA
Os problemas atuais de saúde de Mercedes Sosa começaram quinta-feira, da semana passada, com uma prosaica gripe, da qual a cantora não conseguiu recuperar-se. Por este motivo seus familiares decidiram interna-la no hospital de La Trinidad, na capital federal. Ali, os médicos realizam uma bateria de análises clínicas. A cantora está recebendo “os cuidados necessários para fazer frente à pneumonia que a levou ao hospital”, segundo o jornal “El Clarin”. Ao lado disso, no centro de saúde, os especialistas trabalham para reverter o quadro agudo de desidratação de que Mercedes Sosa também padece.
“La Negra” suspendeu na semana passada uma atuação em Buenos Aires para apresentar seu disco mais recente: “Cantora”. O album é o primeiro de dois discos de duetos, dos quais partiicipam artistas como Juan Manuel Serrat, Shakira e Julieta Venegas, entre outros.
Esta não é a primeira vez que a saúde afasta a grande cantora argentina do palco: em 2003, a artista nascida na provincia de Tucumán sofreu um problema cardíaco – agravado por uma depressão -, que a obrigou a retirar-se por largo período de tempo. Mercedes Sosa voltou a cantar há dois anos em uma turnê pelo México e Chile.
(Vitor Hugp Soares)
Benício del Toro, el Che na tela

Primeira Crítica/Cinema
CHE, HERÓI E LEGENDA
JC Teixeira Gomes
Se alguém ainda tivesse dúvidas sobre a imponência histórica da figura de Guevara, o filme CHE, de Steven Soderbergh, em exibição em todo o país desde sexta-feira, se encarregaria de dissipá-las. O que ali aparece não é herói idealizado pela visão romântica emoldurada nas camisetas do culto juvenil, mas, sim, o revolucionário de grandeza épica, capaz de superar uma avassaladora asma, agravada na umidade das florestas densas, para combater e expulsar de Cuba uma tirania indigna. O herói asmático que vence suas deficiências respiratórias no inferno selvático é categoria inédita na história universal, e não tem paradigma literário.
O Che aparece no filme em dimensão integral: não apenas o comandante vitorioso movido pelo ímpeto libertário, mas também o intelectual preparado e competente, capaz de desafiar na ONU o poder dos Estados Unidos para fustigar, em análises lúcidas a que não faltava a paixão revolucionária, as mazelas que o capitalismo espalhava pela América Latina. David fustigando Golias em seus redutos de dominação ideológica, com a voz potente dos destituídos tornados indomáveis no confronto com a opressão.
Muitos méritos possui o filme, entre os quais (e talvez o mais destacável) o de mostrar a extrema dificuldade que foi a da luta revolucionária, fato que as imagens revelam com bem maior eloquência que os registros dos livros, por mais candentes que sejam ou tenham sido. Aprendemos coisas que nunca nos haviam mostrado sobre a dureza dos combates. A Revolução Cubana surge na tela como uma saga de bravos que planejavam com competência suas ações, lutando contra um exército repressor e bem aparelhado, e não como um grupo de barbudos improvisados, enaltecidos pelas fantasias do clima hippie dos anos sessenta, misturando revolução com romantismo e maconha.
Para os obstinados fidelistas, o filme traz uma vantagem adicional: mostra como a longa permanência do lider guerrilheiro no poder encontra amparo na magnitude da luta que foi necessária para tomá-lo, contra a idéia de um mero apego caudilhesco, tão ao sabor das tiranias latino-americanas e seus chefes corrompidos. Quem construiu aquele tesouro tinha o direito de preservá-lo. E deixa claro o que os revolucionários a toda hora repetiam, no contexto dos diálogos entre suas lideranças: derrubar Bautista não era perpetrar mais um golpe de Estado, mas, sim, promover uma revolução autêntica. Fato que o absoluto apoio do povo, quando as cidades começaram a ser tomadas, depois da longa e incerta conflagração na Sierra Maestra, prova ter sido a mais compensadora da recompensa aos heróis, o troféu maior para tantos sacrifícios e tantas vidas tombadas.
J.C. Teixeira Gomes, escritor e jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia. É autor dos livros “Glauber, este vulcão”; “Assassinos da Liberdade”(romance), “Memória das Trevas” e “Gregório de Mattos, o Boca de Brasa.”
Na manifestação promovida esta semana, na Avenida Paulista (SP), pelas principais centrais sindicais do País, no chamado Dia Mundial Contra a Crise – que espalhou protestos de rua por todas as partes do planeta – uma faixa conduzida pelos manifestantes chamava particularmente a atenção de quem observava o protesto à distâcia.
Dizia simplemente: “Não apoiamos a crise”.
Era só o que faltava!
Que além de braço ostensivo de apoio e amém ao governo federal, os sindicatos da CUT e Força Sindical ainda saissem às ruas para aprovar a “marolinha”.
Que falta fazem Stanislaw Ponte Preta (jornalista Sérgio Porto) e seu FEBEAPÁ no Brasil dos dias que correm.
(Vitor Hugo Soares)
Aposentados: uma aposta de risco
OPINIÃO
O GRITO DOS APOSENTADOS
* Milton Dallari
“Os aposentados brasileiros estão à deriva. Por mais que lutem para se manter ativos, e vivos, convivem com o pesadelo da falta de assistência médica e de benefícios insuficientes para cobrir suas necessidades mínimas. E o governo, às voltas com a falta de recursos e com a queda da arrecadação, vai empurrando o problema com a barriga, enquanto milhares de idosos sofrem nas filas de hospitais públicos (e até mesmo privados) ou são literalmente jogados em asilos de péssima qualidade.
O alerta vale também para os trabalhadores que estão deixando a ativa e se preparando para requerer a aposentadoria. Quem não teve a oportunidade, ou a percepção, de acumular uma reserva financeira durante sua vida profissional, terá obrigatoriamente que viver do que receber do INSS, um ganho que, com o passar dos anos, vai perdendo o valor original, já que a correção anual do benefício para quem ganha acima de um salário mínimo mal consegue cobrir a inflação.
O grito dos aposentados é justo e a realidade traduz a incapacidade do governo de lidar com o explosivo aumento do número de idosos, resultado tanto dos avanços da medicina como de hábitos saudáveis que fizeram aumentar a expectativa de vida.
A primeira desilusão do trabalhador, após décadas de contribuição, envolve o valor do benefício. Mesmo que tenha contribuído pelo teto – sobre dez salários mínimos –, jamais se aposentará com esse valor. Além dos descontos usuais, o golpe maior envolve o chamado fator previdenciário, um desconto que será tanto mais elevado quanto maior for a diferença entre a idade do pedido de aposentadoria e a expectativa de vida calculada pelo IBGE, hoje em cerca de 72 anos.
O fim desse “fator”, que corrói o benefício, está em um projeto de lei, o 3.299/2008, que tramita na Câmara. Dizem os congressistas envolvidos nessa questão que há grandes chances de que seja aprovado. Já um outro projeto, o 01/07, que estende o reajuste anual do salário mínimo a todas as aposentadorias, independentemente do valor, continua fora das prioridades do Congresso. Na mesma linha, também tramitando lentamente e com pouca chance de aprovação, há um terceiro projeto, o 4.434/08 – que obriga o INSS a manter uma paridade constante entre o valor da aposentadoria e o número de salários mínimos recebidos na época de concessão do benefício.
A expectativa maior está mesmo no fim do fator previdenciário e sua substituição por um sistema batizado de 85/95. De acordo com o ministro da Previdência, José Pimentel, está quase batido o martelo em torno desse mecanismo, pelo qual a aposentadoria seria concedida quando a soma da idade com o tempo de contribuição resultasse em 95 anos para os homens e em 85 para as mulheres. As primeiras avaliações sobre o mecanismo são positivas, embora seja sempre aconselhável uma análise mais profunda. É provável que o governo insista em manter uma idade mínima – de 60 anos para homens e 55 para mulheres.
Várias manifestações de aposentados pipocaram pelo país durante o mês de março, mas seu grito teve pouca repercussão na mídia. Mesmo com todas as promessas do presidente Lula, o fato é que qualquer decisão que signifique aumento de gastos assusta as autoridades econômicas, em especial nesse momento de crise.
Mesmo assim, temos que lutar pela recuperação do poder aquisitivo das aposentadorias. A maioria dos idosos que tentam fugir do péssimo atendimento dispensado pelo SUS não está mais conseguindo pagar um plano de saúde e comprar medicamentos. A questão dos planos de saúde merecerá adiante um artigo especial. Muitos deles estão mergulhados em dívidas e por isso descredenciando hospitais e laboratórios, além de cobrar mensalidades cada vez mais elevadas.
Essa é a realidade de nossos aposentados. Sugiro que o Ministério da Saúde faça uma pesquisa nesse segmento da população. Ela deverá escancarar a angústia dos idosos”.
*Milton Dallari é conselheiro da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp e diretor administrativo e financeiro do Sebrae-SP
Tels.: (11) 3266-6088 www.libris.com.br
No vídeo a seguir, que encerra este 30 de março, marcado por perdas severas para a arte da música (Maurice Jarre) e do humor (Ankito) no cinema, um registro impagável do alegre palhaço da chanchada nacional que morreu hoje no Rio de Janeiro. Uma mostra do talento cômico de Ankito, que engordou as bilheterias das casas de exibição do País em interpretações ingênuas e escrachadas mas que calavam fundo na alma popular. Aqui Ankito contracena com uma diva da chanchada:Renata Fronzi.Curtam e sintam saudades! (Vitor Hugo Soares)
Uma legenda do riso

Vitimado por um câncer no pulmão morreu nesta segunda-feira, (30/03), aos 85 anos, o ator Ankizes Pinto, o consagrado Ankito da chanchada nacional, a fase dos filmes de humor que fizeram grande sucesso e alegraram gerações nos anos 50, e começo dos anos 60, até a eclosão do golpe militar de 64, que depôs o presidente João Goulart.
Apesar da grave doença que sofria, diagnosticada há um ano e meio, o alegre palhaço do cinema seguiu fazendo o brasileiro sorrir no programa humorístico “Zorra Total”, até dois meses atrás, quando sua moléstia se agravou e ele teve que retirar-se de cena. Ankito era o Ursinhor do programa do da Rede Globo de Televisão apresentado nas noites de sábado.
O primeiro trabalho de Ankito no cinema foi no filme “É fogo na roupa”, de 1952, que tinha a cantora Emilinha Borba e a vedete Virginia Lane, entre outros, no elenco. Mas o ator começou sua carreira no circo. Nascido em São Paulo, em 1924, Ankito conviveu com o universo circense desde a infância, já que seu pai e seu tio atuavam como palhaços. Aos sete anos, o ator estreou no picadeiro, fazendo acrobacias e, mais tarde, guiando motocicleta no “globo da morte”.
Nos anos 1940, Ankito começou a se apresentar como acrobata no Cassino da Urca e, em seguida, ingressou no teatro. Em 1951, o ator chegou aos cinemas e em 1952, à televisão. Na tela grande, Ankito trabalhou em cerca de 30 filmes e chegou a substituir Oscarito, com quem não raramente era confundido, fazendo dupla com Grande Otelo em filmes como “Pistoleiro Bossa Nova” (1959) e “Um candango na Belacap” (1961). Na televião, Ankito também trabalhou nas séries “Carga pesada”, “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, “Sob nova direção” e “Engraçadinha, seus amores e seus pecados”, além novela “Alma gêmea”.
A viúva do ator, Denise Casaes, informou que a causa da morte, segundo os médicos, foi uma neoplasia pulmonar. E que o marido só parou de trabalhar há dois meses, quando o quadro se complicou..Na noite de domingo (29), ele passou mal e foi levado para o Hospital Pedro Ernesto, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, onde morreu nesta segunda. O enterro de Ankito está marcado para as 11h desta terça-feira (31) no Cemitério do Catumbi., no Rio de Janeiro.
A difícil arte de fazer rir fica mais pobre ainda no País.
(Vitor Hugo Soares)
Virgin Megastore: mais um símbolo americano se vai

CRÔNICA DE SAN FRANCISCO
SUSTO NA PORTA DO PARAÍSO
Regina Soares*
Sábado, como de costume, tomei meu trem e desci no centro de San Francisco. Gosto de andar na cidade, ver as novidades, respirar o ar de descontração e otimismo que ‘Frisco” sempre emanou. Uma das minhas primeiras paradas é na loja de discos (será que ainda se pode chamar assim?) Virgin Megastore, enorme, majestosa, para quem, como eu, adora musica: PARAÍSO!
Qual não foi o meu susto ao ver os enormes, quase tao grandes quanto a loja, cartazes que anunciavam o iminente fechamento dequele que era um dos últimos locais onde se podia escutar e comprar a parafernalia musical, alimento da alma, dos sentidos, razão de viver de muitos. Não podia acreditar no que via, não quero nem mencionar como me sentia, nem da tristeza e raiva que me possuiam.
Entrei para ver o que podia “salvar” e fiquei sabendo que 6 Virgin Megastores vão fechar até o começo do verão, Junho por aqui. A primeira seria a carro-chefe na deslumbrante Time Square de Nova York. Aparentemente, apesar da indústria ainda render lucros ( Union Square gera um lucro de $40 milhões de dólares),e é de se imaginar que alguém ainda compra CDs, o local onde estas lojas estão situadas valem muito mais do que as lojas em si e seriam fechadas para dar lugar a novos locadores que pagariam o alto preço do aluguel da área.
Estima-se que mais de 1060 empregados serão despedidos em todo Pais. O que mais me preocupa é saber que geralmente lojas fecham porque seu negócio vai mal, mas, de acordo com as informações na media, não era este o caso de Virgin. Seria porque ela é uma das últimas no negócio da música gravada ainda se segurando nas pernas? Quando Virgin fechar em NY, San Francisco, e outras cidades do país, não restará nenhuma grande loja dedicada à música.
Quem quiser encontrar uma variedade de seleção de CDs, música clássica, música internacional, ou qualquer uma fora do ordinário, será forçado a pesquisar na Internet, o que pode até parecer ás vezes eficiente, mas não poderá nunca equiparar-se à coveniencia e o prazer de simplesmente entrar numa loja com uma megaseleção de raridades e variedades que estavamos costumados a encontrar nesse PARAÍSO.
Um pesadelo americano que nenhuma crise consegue explicar!
*Regina Soares, advogada formada pela UFBA, vive em Belmont, área da Baia de San Francisco, costa oeste dos Estados Unidos.
Este site-blog vacila na escolha de uma só música em seu tributo a Maurice Jarre, um dos gênios maiores e mais prolíficos da música do cinema de todas as épocas, que partiu hoje.Na dúvida ficamos com este vídeo, que reúne fragmentos dos maiores sucessos de Jarre, começando pela trilha sonora de “Doutor Jivago” , filme de David Lean que deu o primeiro Oscar da carreira do músico nascido na francesa Lyon e naturalizado americano na hollyoodiana Los Angeles. O vídeo deixa um gosto de “quero mais” na última nota. Quem sabe a gente volta com Jarre mais tarde! (Vitor Hugo Soares)
Maurice Jarre, o notável compositor de origem francesa nacionalizado americano, autor de algumas das mais notáveis trilhas musicais do cinema – “Doutor Jivago” (1965), “Lawrence da Arábia”(1962) e “Passagem para a Índia” (1984)-, morreu na madrugada deste domingo (29), aos 84 anos, em Los Angeles, vitimado por um câncer.
Jarre, além de detentor de uma produção musical invejável, passará para a história por ter conquistado três estatuetas do “Oscar”, prêmio máximo da Academia de Artes de Hollyood , como autor das trilhas sonoras destas três películas, sucessos mundiais de critica e de público, todas elas dirigidas pelo cineasta David Lean. A morte do maestro e compositor foi confirma na manhã desta segunda-feira(30) , pelo agente de seu filho, Jean Michel Jarre, pioneiro da música eletrônica.
Na história do cinema nenhum outro compositor recebeu três estatuetas de Hollywood, láureas às quais Jarre soma, entre outros, quatro Globos de Ouro, além do Urso de Ouro que ele recebeu em fevereiro passado no Festival de Berlim, onde aconteceu a sua última aparição pública antes do câncer acabar com a vida do músico genial. Nunca antes Berlim havia outorgado este galardão a um compositor.
Requisitado por grandes diretores de Hollywood, Jarre recebeu nove nominações para o Oscar e 11 para o Globo de Ouro, prêmio maior da crítica. O adeus de um mestre de obra imortal.
(Vitor Hugo Soares)
Lembrando da Bahia ás margens do Charles river

Rosane Santana, jornalista, escreve de Boston (EUA)
“VIVA A BAHIA – Passeava de carro, domingo a noite, pelas ruas de Boston, onde a primavera se anuncia aos poucos na brisa amena que vem do Charles River, rio que corta a cidade, e nas folhas que estÃo voltando, depois de um inverno rigoroso que deixa a paisagem, como sempre, completamente nua. O relogio digital do carro marcava 8:30 PM e eu estava sintonizada na NPR News & Music for Western New England (FM88.5), habito que adquiri na Harvard University. De subito passei a ouvir uma voz (lingua) muito familiar até que, em alguns segundos, a ficha caiu. Era Caetano Veloso cantando a belissima “Lindeza”, composição dele em parceria com Pedro Aznar. “Coisa linda, lua lua lua lua
Sol palavra dança lua, pluma tela petala”. É como se eu estivesse passeando pela orla de Salvador.Viva a Bahia. Por acaso, era 29 de marco”.
“Peões” da construção em Salvador

MEMÓRIA
A PRESENÇA DE UM MILITANTE
Washington de Souza Filho *
Era um comemorativo 29 de março, data da fundação da cidade de Salvador. Washington José de Souza, militante histórico do PCdoB e combativa liderança do movimento sindical baiano, morria aos 73 anos. A lembrança da sua vida, a memória da sua atuação política, é a recordação da importância de homens, que conscientes da necessidade de transformação da sociedade dedicam o seu esforço em torno deste objetivo. Uma realidade demonstrada nesta semana pelos trabalhadores da construção civil da Bahia.
Dez anos depois da sua morte, a Bahia e o Brasil são lugares diferentes. São mudanças das quais não ele participou, mas que sempre lutou para ocorressem.Washington era uma daquelas velhas lideranças que sempre esteve na frente de combate, entre os que acreditavam que a mobilização popular era a alternativa para o desenvolvimento do País e a melhoria de vida da população. O Golpe de 64 abateu sonhos e atraiu a repressão dos que quiseram o cerceamento da liberdade de expressão e manifestação.A ira dos repressores não diminuiu a sua disposição, a força para buscar as mudanças.
Apesar de cassado, pelo Ato Institucional número 2, editado em abril de 1964, não sucumbiu, mesmo com os direitos políticos suspensos por dez anos, cumpridos até o fim. A restrição que o impediu, inclusive, de poder trabalhar, regularmente, não o afastou da militância política. As dificuldades foram muitas, só conhecidas por quem, como ele, teve de enfrentar as contradições surgidas no combate ao regime militar.
A jornada, longa, encerrada com o afastamento dos militares, em 1985, foi marcada por sucessivas prisões e ameaças, registradas pelos órgãos de repressão, que o mantiveram sob vigilância até 1992, na vigência de um governo formado por civis, eleito pela maioria dos votos dos brasileiros. Este período, porém, é o que demonstra a última contribuição deste importante líder sindical, como pôde ser verificada no último acordo dos trabalhadores da construção civil da Bahia.
Pela primeira vez na Bahia, a categoria realizou uma negociação com a adesão de 100 mil trabalhadores de todo o Estado, um fato histórico em relação ao movimento sindical baiano.O primeiro grito se ouviu em 89, com a intitulada “Revolta dos Peões”. Sob a liderança de Washington, os trabalhadores da construção civil deixaram os canteiros das obras e nas ruas de Salvador anunciaram a sua força.
A negociação concretizada representa um legado da atuação consciente de uma direção política que não sucumbiu aos desafios. A importância deste acordo estadual demonstra o valor de uma estratégia, ensinada com a paciência de quem aprendeu com os dissabores como é feita a luta política. A organização dos trabalhadores da construção civil em toda a Bahia foi a última tarefa, à qual o velho líder dedicou-se antes da morte.
A lembrança de Washington, dez anos depois, é feita em um momento de consternação, pela perda, no mês passado, da companheira solidária e mãe inesquecível dos filhos, Lourdes. Ela é imposta pela certeza de que foi um homem que escolheu um caminho e ao determinar o percurso manteve a convicção de militante – a de que as grandes conquistas dependem da disposição de lutar por elas, como fizeram os trabalhadores da construção civil 20 anos depois do primeiro grito.
*jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da UFBa.(wasfilho@ufba.br)
E para fechar musicalmente o dia e a participação do Bahia em Pauta nas celebrações dos 460 anos de fundação de Salvador, a escolha recai mais uma vez sobre Caetano Veloso. Agora ao lado do parceiro de Tropicália Gilberto Gil, ele interpreta “Tradição”, de sua autoria e com tudo a ver com a cidade da Bahia de um tempo que passou deixando saudades, apesar dos problemas de então, que a letra da canção que ficou mais conhecida como “A Garota do Barbalho” registra tão bem. O vídeo foi feito durante o show de 25 anos da Tropicália, em 25 de setembro de 1993, no Anhembi, em São Paulo. Curtam e boa noite! (Vitor Hugo Soares)
O grito de Vila Brandão em Viena

Alcançaram vários países da Europa – e com grande intensidade – os apelos dos moradores da Vila Brandão, em Salvador, contra a ameaça de expropriação da área onde vive uma comunidade de 360 famílias, depois de 60 anos de posse pacífica. Ontem (28), durante a manifestação “contra a especulação financeira mundial”, que reuniu mais de 20 mil participantes em frente ao Parlamento da Áustria, em Viena, uma das faixas mais destacadas dizia:”Viva a Vila Brandão, ameaçada de expropriação em Salvador/Brasil”:
Os protestos se repetiram em Berlim, Frankfurt, Londres e Roma. Na Alemanha circulou abaixo-assinado em defesa das reivindicações da comunidade baiana. Vila Brandão está localizada no elegante bairro da Barra e ocupa uma das áreas mais valorizadas da capital baiana, considerada uma espécie de “filé mignon” da especulação imobiliária na terceira maior cidade do País, que hoje comemora 460 anos de fundação, sem conseguir resolver um de seus mais graves problemas urbanos e sociais: o habitacional.
O documento com pedido de adesão enviada pela Internet também para centenas de pessoas em várias regiões do Brasil ( http://www.ipetitions.com/petition/vilabrandao/) informa que A Vila Brandão é uma comunidade de 350 famílias , fundada nos anos 1940.
”De vida pacata e mais ou menos tranquila”. Habitada por domésticas, funcionários públicos, pescadores, pedreiros, artistas estrangeiros, estudantes, professores…
Hospitaleira, aberta para todos os vizinhos. Zeladora da natureza, das plantas, da fauna, e do mar… fazendo ali uma das poucas áreas preservada, cuidando do verde necessário para essa cidade!”, assinala o texto do abaixo-assinado
De acordo ainda com o documento, ainda assim a comunidade esta sempre envolvida em alguma briga. “E na briga atual tem grandes e poderosos envolvidos”, pois envolve uma área total de 17.700 m2 numa das melhores localizações de Salvador (não é só a Vila Brandão, mas toda a área verde da Ladeira da Barra” . Os moradores da comunidade pagam o IPTU, em sua maioria já há muitos anos , mas se sentem ameaçados de expropriação de sua área de moradia, desde que a administração do prefeito João Henrique, ainda em seu primeiro mandato, conseguiu a aprovação pela Câmara de Vereadores do novo PDDU, que libera gabaritos e permite a construção de altos e sofisticados edifícios na beira do mar.
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SALVADOR: 460 ANOS
Jomard: o mais baiano dos poetas pernambucanos

A seguir um poema do pernambucano Jomard Muniz de Brito. Tudo a ver com a a Bahia , Salvador e a data que hoje se comemora. Jomard está ligado de corpo e espírito à cidade da Bahia de longa data, desde a época de Glauber Rocha (seu grande amigo pessoal) e dos tempos pioneiros da Jornada de Cinema da Bahia, de Guido Araújo. Poeta, cineasta, autor do clássico livro “Do Modernismo à Bossa Nova”, uma das bíblias sagradas de Capinam, Gilberto Gil e Caetano Veloso no tempo do Tropicalismo, Jomard Muniz de Brito é tudo de bom. Gente, principalmente. ( Vitor Hugo Soares)
Uma qualquer Recife
“Uma qualquer Recife cidade sitiada
é a escuta PSI,
a escritura psiu de seus arquitetos da mais sutil
urbanidade ao redor dos favores
da SANTA CASA DE MISERICÓRDIA.
Restauram apenas fachadas em cores vivas,
reinventando a cidade-cartão-postal-global
em sua dignidade tão degradante, sufocada,
turismo mimético do Pelourinho e advertências.
Uma cidade, além das dúvidas e suspeições,
é o conjunto de seus buracos. Imanentes e
galácticos. Cartesianos e dionisíacos.
Gilbertianos por todos os séculos”.
Jomard Muniz de Brito
Ainda no ensejo da passagem dos 460 anos de fundação de cidade, neste 29 de março, o Bahia em Pauta reproduz, a seguir, a entrevista com o poeta e escritor baiano, Fernando da Rocha Peres, feito pelo repórter Claudo Leal, e publicada na revista virtual “Terra Magazine” (http://terramagazine.terra.com.br) do jornalista Bob Fernandes, paulista de nascimento e baiano honorário por opção pessoal e homenagem das mais justas entre as concedidas pela Assembléia Legislativa da Bahia ultimamente. “Inspirado por fel e verbo de Gregório de Matto, Peres “satiriza os desvios da primeira capital brasileira. O historiador da UFBA conhece como poucos as entranhas e desvãos de Salvador – Ou “Salvadolores” como prefere alcunhar a cidade – e sabe do que está falando, como se verá a seguir. (Vitor Hugo Soares, editor)
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Fernando Peres e a destruição de uma cidade

ENTREVISTA/ FERNANDO DA ROCHA PERES
Reporter: Claudio Leal (Terra Magazine)
Inspirado por fel e verbo de Gregório de Mattos, o poeta e historiador baiano Fernando da Rocha Peres satiriza os desvios da primeira capital brasileira, ainda habitada pela “canalha infernal” há séculos maltratada nos poemas do Boca do Inferno. Peres conhece as entranhas de Salvador – ou “Salvadolores”, como prefere alcunhar a cidade que tantas punhaladas lhe deu e dá.
Professor emérito da Universidade Federal da Bahia e ex-diretor do Iphan, ele relança o livro “Memória da Sé”, editado pela Corrupio (www.corrupio.com.br/), com patrocínio da Petrobras. Bem mais que um relato sobre a demolição, em 1933, de uma das jóias do patrimônio histórico brasileiro, a Igreja da Sé, Peres realiza um estudo minucioso da mentalidade urbana no início do século XX, quando houve uma fúria “modernizadora” no Rio de Janeiro e na Bahia.
Sob outra roupagem, essa “fúria” segue a mutilar e destruir marcos referenciais de Salvador, com a demolição de casarios para abrir espaço a espigões, a liberação do gabarito em vários pontos da cidade – o que vai mudar o perfil da urbe colonial -, a devastação de áreas verdes e as ruínas de velhos sobrados. O historiador analisa o avanço do espírito predatório:
- Hoje, há uma classe média em ascensão que faz parte também dessa “canalha infernal”, que gostaria de ver a cidade histórica totalmente destruída, para nela construir edifícios de 30 ou 40 andares. Porque essa nova classe média quer morar olhando o mar, para curar as suas depressões…
Nascido de uma pesquisa acadêmica realizada em 1973, “Memória da Sé” ganhou elogios de Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Pedro Calmon e Pedro Nava. Um dos intelectuais mais atuantes da Geração Mapa, a mesma de Glauber Rocha, Peres compôs um panorama de 21 anos de polêmicas na província.
Escritores e bacharéis protestaram contra o projeto de demolição, aprovado pelo clero e sacramentado pelo arcebispo-primaz do Brasil, o Cardeal da Silva. Em 1933, o templo ruiu, depois de pagamento à Igreja.
Em 2009, o livro recobra atualidade: a Sé foi demolida para dar passagem aos bondes da Companhia Linhas Circular de Carris da Bahia, uma espécie de prenúncio das cidades moldadas pelos automotores.
- Vir a Salvador hoje é uma aventura, como se o sujeito estivesse viajando para um País estranho – critica o escritor.
Estudioso da vida e obra do poeta Gregório de Mattos, Fernando da Rocha Peres é também autor de “Febre Terçã” e “Estranhuras”. A ele o amigo Pedro Nava confiou a edição das cartas recebidas de Mário de Andrade, que deram origem a “Correspondente contumaz”, de 1982.
Confira a entrevista:
Terra Magazine – A reedição de “Memória da Sé” ganha atualidade com o enfraquecimento das políticas públicas para o patrimônio histórico?
Fernando da Rocha Peres – Ganha em atualidade dentro do contexto da política cultural do governo. Todos nós da área sentimos que ela é imensamente fraca e frágil. O governo destina pouquíssimos recursos e não dá nenhuma importância à questão da Cultura no País. Pensa que resolve tudo com a construção de 1 milhão de casas populares. Todos nós sabemos que isto não vai acontecer. O ideal seria se melhorassem o ensino público, melhorassem as condições de saúde da população. Estamos vendo agora o dengue ou a dengue, eu não sei mais, masculino ou feminino… (a Bahia enfrenta uma epidemia de dengue) Se houvesse uma cultura para que isso não ocorresse, ou seja, se a população tivesse o mínimo de conhecimento a respeito do assunto, isto não estaria acontecendo. Se fosse uma população consciente, culturalmente ativa, não aconteceria.
O senhor afirma que os recursos para a Cultura são mínimos, tanto na Bahia como no País em geral. Desse montante, as verbas para o patrimônio são ainda mais diminutas?
Para o patrimônio histórico, eles destinam recursos orçamentários dentro daquele pouco que vai para o Ministério da Cultura. Porque este governo – não só no plano federal, mas também nos governos municipais e estaduais -, não tem uma política cultural consequente. Eles estão preocupados, os governos federal e estaduais, em “interiorizar” a Cultura. E os governos municipais em “favelizar” a cultura. Ou seja, levar a cultura para os grotões do interior – isto não resulta em nada – e levar a cultura para as favelas. Um programa dessa natureza já foi intentado há muitos anos atrás e não houve continuidade. Levar a cultura para a favela requer, principalmente, uma continuidade de governo a governo, para que, consequentemente, as pessoas adquiram cultura e informação suficientes para enfrentar a dengue.
Tem uma confluência com a crise na educação, não?
Crise na educação, crise na economia, crise na saúde, crise na segurança pública, crise em todos os escaninhos dos governos. Não é só lá fora. Não adianta dizer que Obama está carregando um pepino, quando as pessoas aqui já estão fartas de comer abacaxi (risos).
Há paralelos entre a mentalidade da Bahia dos anos 30, quando houve a demolição da Igreja da Sé, e a atual? Como o homem médio encara a preservação do patrimônio? Qual foi o legado desse crime histórico?
Gregório de Mattos, no século XVII, já dizia que a Cidade da Bahia era habitada por uma “canalha infernal”. Em 1933, não melhorou nada. A “canalha infernal” esteve presente. Hoje, há uma classe média em ascensão que faz parte também dessa “canalha infernal”, que gostaria de ver a cidade histórica totalmente destruída, para nela construir edifícios de 30 ou 40 andares. Porque essa nova classe média quer morar olhando o mar, para curar as suas depressões, as suas insatisfações, as suas expectativas irrealizadas.
Salvador vira as costas para o mar? É ocupada por prédios em boa parte de sua costa.
É, vira as costas pro mar, apesar de ser um belo panorama balneário. Mas acontece que as pessoas que vêm para Salvador, os turistas estrangeiros, se queixam que não podem ir à praia porque as praias estão poluídas, estão cheias de ladrões… se queixam que não podem ir ao Pelourinho, porque está tudo infestado de sujeira e de ladroagem… se queixam que a culinária baiana é muito cara, quando não leva o sujeito pra cama com uma diarréia brutal… Então, vir a Salvador hoje é uma aventura, como se o sujeito estivesse viajando para um País estranho.
Para um safári?
Um safári (risos).
Em algum momento, após a demolição da Sé, houve uma conscientização dessa classe média infernal e da classe média intelectualizada?
Sim, é evidente, uma classe média intelectualizada é de doutores. Mas os doutores, como você sabe, hoje estão sendo execrados, não é necessário o indivíduo ser doutor para atingir determinados lugares. Naquela oportunidade, havia uma classe média de intelectuais esclarecidos, que atuaram contra a reforma urbana de Salvador e, consequentemente, contra a demolição de monumentos religiosos, do casario, para a construção da Avenida Sete de Setembro (avenida central e comercial de Salvador). Acontece que, hoje em dia, esses intelectuais perderam aquele fio polêmico, aquela vontade de defender a cidade. Eles querem aproveitar os espaços ainda não habitados para destrui-los, como está ocorrendo com a Paralela (avenida com resquícios de Mata Atlântica em processo de devastação), com o Litoral Norte, que a cada dia se integra mais à cidade, transformando Salvador numa cidade grande e tortuosa. Por isso mesmo eu a denomino de “Salvadolores”.
É uma ocupação predatória?
Predatória. Eles estão desmatando, com muita eficiência, para a construção de condomínios, para a construção de resorts e etc. etc.
As autoridades públicas baianas não têm consciência dessa vocação histórica de Salvador? O prefeito João Henrique foi o grande defensor do PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano), que agradou às empreiteiras por permitir a construção de espigões em vários bairros. E esse lado dos homens públicos que não estão comprometidos com a defesa da cidade?
As autoridades públicas, de um modo geral, são incultas. Se você observar bem, não há nenhum que seja culto. Estamos vendo agora o cenário do Senado Federal, onde há um escritor de um livro famoso chamado “Marimbondos de Fogo”. E ele está atarantado com aquilo que plantou há anos atrás. Agora ele voltou e encontrou a casa de marimbondos pior ainda do que já era.
Há esse declínio na formação do homem público?
… Da incultura do homem público, e não só, também do homem graduado. Dom Clemente Maria da Silva Nigra (monge beneditino já falecido), num pequeno extrato de seu diário, diz que a decisão final para a derrubada da Igreja foi provocada por um “arcebispo inculto e pelos revolucionários incultos” que ocuparam a Bahia em 1933. Bem, o chefe dessa inculta tropa era um cearense chamado Juracy Magalhães, que depois dominou a Bahia durante muitos anos. E o arcebispo era pernambucano.
Dom Augusto, o Cardeal da Silva. Qual foi o papel dele?
Ele foi o grande finalista, digamos assim. Ele chutou o pênalti. Era o Ronaldo de batina.(risos)
O senhor pode situar a importância da Igreja da Sé para a história do Brasil?
A Igreja da Sé começou a ser construída em 1552 pelo bispo Sardinha, que depois foi devorado pelos índios nas costas das Alagoas…
Num memorável jantar…
É, num jantar, evidentemente, muito importante. Daí os portugueses descobriram a “sardinha” em lata… Em seguida, a Sé, depois de começar a ser construída por Thomé de Souza, teve também a contribuição de dois outros governadores, Mem de Sá e Duarte da Costa. Levantou-se essa primeira Sé de pedra e cal. Depois foi passando por transformações. Ocorreram inúmeros fatos históricos. Os holandeses ocuparam a Igreja da Sé, durante a primeira invasão holandesa. Ela serviu de quartel dos holandeses. Os portugueses e os espanhóis expulsaram. Na segunda invasão holandesa, ela também foi bombardeada e, na frente dela, se colocaram canhoneiras, colubrinas, que eram pequenos canhões para rebater os holandeses que estavam na encosta do Carmo, atacando a cidade. Nela Gregório de Mattos e Guerra, o grande poeta, foi da Relação Eclesiástica e Tesoureiro-mor. Nela o Padre Antonio Vieira, diante de Nossa Senhora das Maravilhas, recebeu o “estalo” e ficou inteligente. Quem sabe se as autoridades vierem à Bahia, visitarem o Museu de Arte Sacra e se ajoelharem diante de Nossa Senhora das Maravilhas, não vai haver um estalo geral e irrestrito em suas cabeças! (risos)
Nossa Senhora das Maravilhas ainda resolve?
Não sei. Vamos ver, né?
O setor de patrimônio histórico teve homens como Mário de Andrade e Rodrigo de Mello Franco. E hoje se vê o Iphan concedendo licenças e mais licenças pra construções que agridem o patrimônio. Com a experiência de quem já dirigiu o Iphan, na Bahia dos anos 70, o senhor pode dizer para que ainda servem essas instituições?
Servem para afogar – vejam bem que eu disse “afogar” – o ego dos vaidosos que estão querendo ocupar um cargo e ganhar com isso uma proeminência. Esses também precisam visitar Nossa Senhora das Maravilhas…
Nessa edição nova do “Memória da Sé”, o que mais foi incluído, além desse extrato do diário de Dom Clemente?
Levanto a questão de que, em 1912, Seabra (ex-governador da Bahia) queria derrubar inteiramente o Mosteiro de São Bento e um dos beneditinos reagiu mandando entregar panfletos na rua. Seabra teve que recuar. E o mosteiro está lá. O arcebispo da época, dom Jerônimo Tomé da Silva, não disse nem “ai” nem “ui”, deixou que Seabra continuasse delirando e contribuiu, enormemente, para a demolição de várias igrejas. Isso está numa revista do Mosteiro de São Bento, que eu consegui lá no mosteiro. Outro fato que eu também aponto é um altar da Sé que estava à venda em São Paulo, em 1941. Esse problema estourou na imprensa baiana. Investigou-se e descobriu-se que esta coisa saiu daqui, apesar de um certo controle que, naquela oportunidade, já existia. Mas esse controle era relativo. Dos dois funcionários que faziam esse controle dos objetos de cunho artístico, nas docas – havia uma determinação governamental neste sentido -, um era leigo, outro era padre. Evidentemente, o padre deve ter dito que aquilo não tinha importância, podia sair e saiu. Foi parar em São Paulo pra ser vendido em um antiquário. Saíram muitas coisas das demolições aqui da Bahia para coleções particulares. Não só daqui, mas da América Latina e também da Europa e dos Estados Unidos.
Pra finalizar, como definir a caça da Prefeitura de Salvador às pedras portuguesas?
Vejo isso como uma revanche. É um resgate das autoridades tupinambás. Mestiços de tupinambás querem dessa maneira praticar um canibalismo atrasado, tirando as pedras portuguesas porque não podem assar os portugueses. Assar e comer os portugueses! Por isso, ultimamente, nas praias de Salvador, só os pinguins têm a liberdade e os carinhos necessários (risos).
“Deixa ver com meus olhos saudosos a Bahia do meu coração…Dá licença de rezar ao Senhor do Bonfim… Eu fico contente da vida em saber que a Bahia é Brasil”. Versos de “Bahia com H”, samba exaltação lindissimo de Denis Brean, gravado originalmente por Chico Alves, em 1947. Que música mais apropriada poderia ser escolhida para celebrar este 29 de março dos 460 anos de Salvador? Difícil encontrar outra comparável. Ainda mais nesta interpretação sensacional de dois artistas da terra da melhor cepa: João Gilberto e Caetano Veloso. O vídeo gravado ao vivo em show , amplifica ainda mais toda a imensa emoção e harmonia de um momento raro.
(A sugestão veio de São Paulo, do jornalista baiano Claudio Leal, que trabalha na revista virtual Terra Magazine. Bahia em Pauta Agradece comovido.)