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Posted on 28-02-2009
Filed Under (Artigos) by bahiaempauta on 28-02-2009

Foto: Reinaldo Marques / Blog Terra Magazine

Carlinhos Brown personagem do carnaval no Rio e em Salvador.

Vitor Hugo Soares

 

O tambor sempre foi uma referência nacional, mas nunca esteve tão em alta quanto desde quarta-feira (25), com a conquista pelo Salgueiro do título de campeã do carnaval deste ano no Rio de Janeiro. Sei que alguns irão torcer o nariz, mas escolho o timbaleiro baiano, Carlinhos Brown, como personagem da semana. Ele arrasou tanto em Salvador, no comando da sua Timbalada, quanto na passarela da Marquês de Sapucaí, ao desfilar em cima de réplica da “Caetanave” (trio elétrico que nos anos 70 empolgava as ruas da cidade da Bahia, e este ano fez a festa dos cariocas), ajudando na vitória da escola Acadêmicos de Salgueiro, que se reapresenta neste sábado (28) no Sambódromo do Rio, no Desfile das Campeãs, para júbilo de sua comunidade e as honras devidas do público em geral.

 

Do topo de soteropolitano carro alegórico – dos mais empolgados e empolgantes do desfile da Sapucaí -, Brown ajudou a derrubar de vez dois mitos de uma só tacada. Ambos estimulados por uma velha rixa bairrista, acirrada principalmente no tempo do Pasquim: a de que Rio não combina com Bahia quando o assunto é carnaval; e que falar de Bahia em desfile de escola de samba carioca dá azar.

  

É bom procurar outro motivo para justificar infortúnios. Talvez no desfile da Beija-Flor de Nilópolis, cujos adeptos se queixam de caiporismo em razão da escola não ter sido tricampeã. Sim, porque Rio e Bahia sempre deram liga das melhores. Apesar das diferenças naturais, se assemelham muito e combinam em quase tudo desde o tempo do Imperador, ou da legendária Tia Ciata, ou mesmo da grande estrada de rodagem construída e asfaltada nos governos de Getúlio e Juscelino, para unir um pólo a outro, indissoluvelmente.

 

O sempre polêmico timbaleiro do gueto do Candeal fez tão bonito em 2009, quanto seu celebrado sogro, Chico Buarque de Holanda, quando este desfilou em 92, como um dos destaques do enredo que a Mangueira construiu para homenagear o maestro soberano Tom Jobim. Além disso, o músico baiano foi profético ao antecipar a vitória na passarela, desde que a comunidade salgueirense optou pelo Tambor para enredo deste ano, e o carnavalesco Renato Lage o convidou para ser um dos destaques no desfile.

 

Ainda na fase dos ensaios no Rio, o “tribalista” do Candeal deu entrevista ao Correio da Bahia e assinalou o acerto do Salgueiro, “ao resolver voltar seus olhos e ouvidos para a terra do Senhor do Bonfim”. Recordou ainda ter sido o Salgueiro a primeira escola a cantar a baianidade e a abrir o caminho para a Bahia mostrar a sua música, “pois antes disso, diziam que cantar a Bahia dava má sorte”.

   

Baianos e cariocas que amam o samba de verdade não esquecem: foi o samba-enredo “Bahia de Todos os Deuses”, que em fevereiro de 69 deu à escola um título que está fazendo 40 anos e o Salgueiro propõe inteligentemente esta homenagem ao tambor. “Tia Ciata, que era baiana, deve estar amando, e eu também com o presente que acabo de receber”, vibrava Brown, na antevisão da vitória confirmada quarta-feira.

   

Que azar, que nada! Como esquecer “Bahia de Todos os Deuses”, magnífica composição da dupla Bala e Manoel Rosa, que naquele carnaval histórico levantou a Avenida Rio Branco , levou o público ao delírio, e o Salgueiro a um triunfo retumbante: “Bahia, os meus olhos estão brilhando/Meu coração palpitando/ De tanta felicidade”… Dias depois, uma delegação salgueirense, convidada pelo governo do Estado – na época Luis Viana Filho é quem governava a Bahia – desembarcava de ônibus em Salvador para receber os agradecimentos emocionados dos baianos pela homenagem memorável.

   

Jovem estudante da Universidade Federal da Bahia, eu lembro de ter ficado plantado, durante horas, no largo em frente ao velho Hotel São Bento, a poucos metros da Praça Castro Alves, onde os membros da escola carioca ficaram hospedados. Queria ser dos primeiros a aplaudir os sambistas cariocas. Emoção parecida só lembro ter sentido quando ouvi pela primeira vez a composição “Onde o Rio é mais baiano”, que Caetano Veloso fez em agradecimento ao enredo “Atrás da verde-e-rosa só não vai quem já morreu”, criado pela Mangueira em 94, para cantar em louvor aos Doces Bárbaros: “A Bahia, Estação primeira do Brasil/ Ao ver Mangueira nela inteira se viu/ Exibiu-se sua face verdadeira”…

 

 E agora tudo se repete – e ao mesmo tempo se renova – na passagem do Tambor dos Acadêmicos do Salgueiro que neste sábado retorna ao sambódromo da Marquês de Sapucaí, desta vez para celebrar um resultado ainda mais esplêndido da mistura Rio e Bahia – o título que bane o mito do azar e faz a escola do Salgueiro campeã depois de 16 anos de jejum. Evoé Brown! Salve o Salgueiro!

 

 

Vitor Hugo Soares é jornalista –  

E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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