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Posted on 21-02-2009
Filed Under (Artigos) by bahiaempauta on 21-02-2009

 Levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) revela: quase 700 mil baianos (homens e mulheres) começaram a brincar “o carnaval da crise” (iniciado em Salvador desde quinta-feira( com o desfile do Rei Momo), amarrados em  dívidas financeiras  das quais não conseguem livrar-se. Enquanto rolam os débitos, não se sabe até onde e quando, a crise aperta a corda no pescoço dos integrantes do bloco dos inadimplentes, puxada  por bancos, lojas, imobiliárias e, principalmente, empresas de cartões de crédito.

Saiu também, no agito da folia, outra informação não menos perturbadora: o índice de cheques sem fundos nas praças da Bahia cresceu 17% em janeiro passado, comparado com o mesmo período de 2008. Os baianos, com a fama de consumistas delirantes e pagadores que não dão bola para o prazo de vencimento de suas contas, desta vez não aparecem tão mal na foto, se comparados aos seus semelhantes de outros estados. Na média geral do País, o aumento de “borrachudos” foi ainda maior: 20%.

  Registro os dados, mas confesso a minha visceral desconfiança em relação a números dos índices oficiais de qualquer coisa. Aprendi nos manuais de texto do JORNAL DO BRASIL e da revista VEJA, que este é um mal comum a jornalistas. “Tá legal, eu aceito o argumento”, como diz o carioca e carnavalesco da velha guarda, Paulinho da Viola. Mas fatos concretos reforçam cada vez mais o velho ceticismo, que pouco tem a ver com o jornalismo. Vejam, por exemplo, este baita bafafá, com potencial de escândalo, sobre contas que não fecham quanto aos gastos da recente festança em Brasília, no encontro de prefeitos, que marcou a largada da campanha da ministra da Casa Civil, e mãe do PAC, Dilma Roussef, como candidata governista à sucessão do presidente Lula em 2010.

 O custo do happening monumental continua incerto e ainda não sabido. Dos menos de R$ 300 mil informados no início pela Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto, os gastos já batem na casa dos quase R$ 3 milhões. Contas são feitas e refeitas em meio a protestos e desconfianças, abafados agora pelos diferentes rugidos do carnaval espalhados pelo País. Diante disso, retorno às preocupações iniciais destas linhas: as dívidas a pagar feitas em tempos de vacas menos magras: o automóvel , a primeira casa ou apartamento, o empréstimo consignado para a viagem sempre adiada , o restaurante ou bar do fim de semana, o puro deleite de um vestido de grife, do celular ou laptop, sonhos de consumo da atualidade.

Caiu em minhas mãos por empréstimo, há poucos dias, um exemplar do livro “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”, da escritora britânica Sophie Kinsella. É a história de uma jornalista financeira, Rebecca Bloom, a Becky , que durante uma parte do dia trabalha em uma revista onde ensina e orienta às pessoas como administrar seu dinheiro. No resto do tempo, ela transforma-se em consumidora compulsiva, que acaba argolada pelas dívidas e começa a fugir loucamente de um encontro com o gerente de seu banco e administradores de empresas de cartões de créditos e seus avisos e cartas cada vez mais ameaçadores.

O livro é desses que pegam na veia. Leitura iniciada é quase impossível desgrudar-se das suas quase 500 páginas. Difícil ficar alheio à tragicomédia vivida por Becky e os que a cercam no trabalho, na família, nas relações pessoais e amorosas, mas principalmente nas ruas e recantos de um monumento mundial ao consumo: a cidade de Londres, com a sua imbatível Oxford Street e outros inumeráveis templos badalados de moda e lazer, paraíso para quem não dispensa uma boa ponta de estoque ou um objeto de desejo exclusivo. Mundo de pesadelos, porém, quando chegam os extratos dos cartões de crédito.

A autora e a novela, ambos até então desconhecidos para mim, foram duas magníficas descobertas, no esforço dos últimos dias para entender este tempo de crise planetária, sem perder o humor. Bem mais atraentes e interessantes que o ministro Guido Mantega, da Fazenda, ou o dono da chave do cofre do Banco Central, Henrique Meireles, com seus discursos maçantes e entrevistas pouco elucidativas. Sophie Kinsella é o pseudônimo que a escritora inglesa Madeleine Wickman utiliza para escrever os livros da série “Delírios de Compras”. Nasceu em Londres, em 69, formou-se em Filosofia e Ciências Políticas e Econômicas na Universidade de Oxford, com especialização em jornalismo financeiro, e domina a arte de escrever como poucos.

E quem é a personagem central do livro que já virou filme e faz sucesso na Europa inteira e nos Estados Unidos? “Rebecca sou eu. São minhas irmãs, todas as minhas amigas que saíram para comprar um chocolate e voltaram para casa com um par de botas. Becky resume todas as mulheres (e homens) que se viram parados diante de uma vitrine e souberam, com absoluta certeza, que “precisavam” comprar aquele casaco… e calças que combinassem com ele. Ela é a síntese de todas as pessoas cujo coração começa a palpitar à simples visão de um anúncio de 50% de descontos. Todas as que recebem a fatura do cartão de crédito e imediatamente imaginam haver algum erro. Eles não podem ter gastado tanto”, completa a autora.

Mas não pensem que Becky é apenas mais uma dessas deslumbradas “materials girls, que só pensam em dinheiro e futilidades”. Rebecca é mulher, profissional inteligente, criativa, carinhosa, e extremamente otimista, mesmo sabendo que o seu emprego está ameaçado. E mais não digo para não quebrar o encanto de uma leitura indispensável em tempos como os atuais.

 Bom carnaval, ou boa leitura, para todos. 

Vitor Hugo Soares é jornalista -E-mail:vitors.h@uol.com.br

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