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Posted on 14-02-2009
Filed Under (Artigos) by bahiaempauta on 14-02-2009

Vitor Hugo Soares

 

O primeiro grito partiu do fundo da Baía de Todos os Santos e ampliou-se ao cair no noticiário e nas manifestações indignadas sobre o assassinato do velejador e empresário Abel Harbovsky Aguilar, de 36 anos, durante um assalto ao seu barco ancorado na marina da Ilha de Itaparica. A brutalidade bate novamente na porta do recanto impregnado de feitiço, história e belezas incomuns, cenário principal de “Viva o Povo Brasileiro”, livro emblemático de João Ubaldo Ribeiro. O escritor itaparicano  convocou seus conterrâneos para a briga já quase perdida pelo retorno da paz e da convivência debochada e harmônica que deram fama mundial ao paraíso ameaçado, sem poupar nem a maior autoridade estadual: o governador Jaques Wagner(PT).

 

Na quarta-feira, o espanto veio da europeia Suíça, outro mundo de sonhos e maravilhas, tantas vezes citado como Éden da cultura e da civilização. “O lugar onde ninguém rouba, ninguém mata, nem joga lixo nas ruas”, como ensinava na aula de Geografia uma de minhas românticas professoras do curso primário, que, evidentemente, jamais se aventurara, fora dos livros, em voos para além das barrancas do Rio São Francisco. No “Blog do Noblat”, quarta-feira, outra realidade parece aflorar na notícia em primeira mão que chocou o Brasil inteiro.

 

É o caso da advogada pernambucana Paula Ventura Oliveira, que aparece na fotografia com o corpo retalhado e coberto por inscrições que sugerem prática racista. Residente legal no país estrangeiro, empregada em potente multinacional dinamarquesa de transportes marítimos, Paula denuncia ter perdido os gêmeos que trazia no ventre depois de submetida a impiedosa sessão de tortura por três “skinheads” – supostamente neonazistas . Poupo os leitores da repetição de detalhes de uma história estranha , bárbara e revoltante, que ainda segue cercada de indiferença, cautela e dúvidas na Suíça.

 

 No caso de Itaparica, logo em seguida ao crime de comprovada e insana violência, explodiu a indignação contra uma crise evidente em Salvador e Região Metropolitana,  que põe apenas a cauda de fora da superfície do mar, como os icebergs. Dupla de bandidos “pé de chinelo” invade um catamarã com seis turistas a bordo, ancorado na marina lotada de barcos locais, nacionais e estrangeiros. No assalto foi morto com um tiro no peito o empresário Aguilar, 36 anos, velejador profissional paranaense que deixou Curitiba para tocar a “Salvador Charters”, bem sucedida empresa baiana no ramo mais sofisticado do turismo náutico.

 

Os policias de plantão dormiam no prédio degradado da cadeia local, sem recursos nem para a gasolina da única viatura em condições de uso. O delegado da ilha só apareceu nove horas depois do crime, quando a população indignada já explodia contra a polícia e o governo estadual. “Ladrões matam dono de barco em Itaparica”, “Itaparica pede socorro”, proclamam títulos do noticiário. O fato policial foi amplificado pelo choque verbal e político entre o escritor João Ubaldo e o governador petista, que segue causando estragos apesar das muitas camadas de panos quentes jogadas sobre os dois contendores nas últimas horas.

 

Na Bahia, o delegado de Itaparica foi demitido e substituído por José Magalhães, o mais famoso e duro policial do tempo do “carlismo”, que já anunciou: “Não prendo bandido duas vezes: só acredito na bala, e bala temos de sobra”.  O governador Wagner, em geral tranqüilo, também subiu o tom de sua reação: “sou de enfrentar os problemas e não costumo me esconder em armários, como muita gente,” disse irritado, antes de desembarcar, acompanhado do secretário de Segurança, na ilha de João Ubaldo, nesta sexta-feira, para ver pessoalmente a situação.

 

Na Suíça, governo, imprensa e sociedade seguem “cautelosos e céticos” em relação ao ataque que a advogada pernambucana afirma ter sofrido na estação de trem, principalmente quanto às suspeitas de conteúdo político e a carga horripilante de xenofobia e tortura levantadas na denúncia de larga repercussão na imprensa brasileira, reforçada pelo chanceler Celso Amorim “e o governo de Pernambuco em seus protestos e pressões”, segundo assinalam o diário “Le Matin” e o site “Swissinfo”. Ainda assim, os helvéciod começam a sair da habitual indiferença pura e simples, para investigar e buscar respostas efetivas e reais sobre o muito que ainda parece escondido no caso.

 

Há uma espécie de reconhecimento tácito do governo e da alta diplomacia suíça quanto à falhas graves na ação inicial da polícia, marcada por grotescos sinais de incompetência e preconceito no tratamento dispensado pelos agentes policiais à Paula, mulher e latina. Em casos assim, bem sabemos também por aqui, o jogo policial crê que a melhor saída é disseminar suspeitas e confundir. O “Le Matin  diz em sua edição de ontem, que a polícia de Zurique já possui “um levantamento completo de todos os passos da advogada brasileira na volta para casa naquela  noite , e afirma que ela não estava grávida”. O jornal revela ainda: “o Instituto de Medicina Legal da Universidade de Zurique privilegia a tese de auto-mutilação”.

 

Racismo segue sendo um delito previsto no artigo 261 do rigoroso Código Penal helvécio, e a Comissão Federal contra o Racismo registrou 355 denúncias entre 1995 e 2006 no país. Mas – e há sempre um “mas” em situações como esta – em quase metade dos casos e depois de uma avaliação detalhada (segundo o Swissinfo), “as autoridades disseram não ter encontrado provas suficientes para abrir um processo penal”. A conferir, neste caso de desfecho ainda imprevisível na Suíça 2009, em transe e em crise financeira, política e de identidade.

 

 

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@ig.com.br

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