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Postado em 30-01-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 30-01-2009 18:46

Vitor Hugo Soares

Ainda requer cuidados especiais o estado de saúde do vice-presidente da República, José Alencar, seis dias depois da cirurgia de quase 18 horas de duração a que se submeteu, para retirada de nove tumores no abdômen, o maior com 12cm. A recuperação, na previsão dos cirurgiões, deve ser lenta em razão complexidade da operação em uma pessoa com 77 anos de idade, mas as notícias recentes saídas do Hospital Sírio Libanês são animadoras. Informam que o paciente superou a fase crítica,está consciente, respira sem aparelhos, e já pediu para voltar para casa, “no máximo até segunda-feira”, 02 de fevereiro.


Se for atendido e deixar o hospital no Dia de Iemanjá , não demora muito para Zé Alencar retornar também ao batente em Brasília. O presidente Lula saiu de São Paulo, esta semana, convencido de que logo o vice volta ao Planalto, para conversas e trocas de opiniões sobre os complicados caminhos atuais do governo, do Congresso e da economia. Mas o “companheiro Zé” deve retomar, principalmente, o seu combate sem trégua contra a imoralidade das taxas de juros ainda vigentes no País. Agora mais cheio de razão, tal a contradição gritante entre a manutenção da escorcha dos interesses financeiros e a crise colossal cujas sombras se propagam, rápida e perigosamente.

“Ele vai surpreender outra vez”, previu o presidente ao desafiar a azia e falar com jornalistas na saída da visita ao amigo, depois da mais longa e periclitante cirurgia em quase 10 anos de luta contra o câncer. Alencar parece mesmo a um passo de vencer mais esta briga, com a força dos avanços da medicina, dos recursos financeiros e bons hospitais que não lhe faltam, mas principalmente com as armas do espírito de um homem incomum. Dou, a seguir, um testemunho de exemplo presenciado em Salvador, para explicar minha esperança de leigo ateu baiano que crê em milagres.

É preciso voltar a 12 de setembro de 2002, na fase de arrancada decisiva da campanha que levaria ao inédito no Brasil: um ex-dirigente sindical do ABC conduzido pelo voto ao Palácio do Planalto. Naquele dia um temporal assustador ameaçava afogar Salvador, enquanto se aproximava uma noite daquelas em que o melhor a fazer era ficar em casa ou ao abrigo de um hotel, mesmo sendo um político à cata de votos em encardido embate presidencial. Tomar avião nem pensar, ainda mais se a pessoa arde com febre de mais de 38 graus, e está com a garganta estropiada por uma faringite agravada pelo excesso de uso das cordas vocais em comícios sucessivo país afora.

Era  exatamente essa a situação do bem sucedido empresário, dono da Coteminas, campeã nacional do ramo têxtil, esperado na sede multicentenária da Associação Comercial da Bahia – mais antiga e das mais conservadoras organizações de homens de negócios da América Latina – para uma palestra destinada a derrubar resistências ainda fortes na elite empresarial do Nordeste, quanto a apoiar o barbudo sindicalista do PT para ocupar o mais alto posto de comando da Nação.

Contrariando a maioria das previsões, Zé Alencar desembarcou no aeroporto debaixo do dilúvio, rosto convulsionado pela gripe e avermelhado pela febre alta. Mal teve tempo de passar no hotel para trocar a roupa, e seguir para o histórico prédio da ACB, na Cidade Baixa, pois já estava atrasado para conversa com os detentores da maior fatia do PIB baiano. Na cidade já corria o boato de que, doente e sem poder enfrentar o aguaceiro que impedia o trânsito nas ruas, Zé Alencar não iria mais ao encontro na ACB: “foi para a cama”, diziam alguns, com ar de troça.

Puro engano de quem não conhecia o obstinado e resistente Zé. Impossível esquecer a chegada na ACB, daquela figura que parecia saída de um conto de “Sagarana”, do conterrâneo Guimarães Rosa. Vestido em linho branco, garganta quase tapada, rouco e ardendo de febre, falou sem parar durante uma hora e meia.Contou histórias de sua trajetória de engraxate humilde a dono de um império textil.Traçou o quadro temerário das dificuldades econômicas de então, malhou a sanha dos juros financeiros, culpou o governo FHC pela omissão diante da crise que se avizinhava, e defendeu a necessidade de mudar. Fez o público sorrir e se emocionar.

No fim, pediu a seus companheiros da Bahia para colocar a mão na consciência e ter “a coragem de votar no ex-líder das greves em São Paulo , pois  será um voto ao Brasil”, afirmou. Ainda achou voz e força para aplicar severa cipoada no presidente Fernando Henrique Cardoso, seu desafeto preferencial, antes de sair , sob aplausos, para recolher-se ao hotel. No dia seguinte, repouso? Nada disso, o mineiro pegou o avião de manhã cedo, ainda debaixo de chuva, e foi repetir a dose em Itabuna e Vitória da Conquista, no encerramento da campanha, cujo resultado todo mundo conhece.

Dirão que já contei esta história em outros artigos. É verdade,  mas, nas circunstâncias, vale depor mais uma vez sobre a fibra incomum deste resistente guerreiro de Minas, chamado Zé.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitors.h@uol.com.br

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Comentários

Laura on 31 Janeiro, 2009 at 0:16 #

Eh um grande guerreiro mesmo Tio Vitor, concordo… mas na vida temos q ser guerreiros. Temos grandes exemplos proximos de nos tb. Grande beijo!! Laura


Laura on 31 Janeiro, 2009 at 1:02 #

Ah, esqueci de dizer LINDO texto!!

Grande beijo!!


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