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Postado em 23-01-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 23-01-2009 20:26

Vitor Hugo Soares

 

Reportagem de Ana Paula Sousa, na “Carta Capital”, anuncia: Othon Bastos – artista singular e plural de teatro, cinema e televisão – está fazendo 55 anos de carreira. Aos 71 de idade, resistente desde sempre, ele diz que pagou um preço por suas escolhas profissionais: “o preço da dignidade”. Sem lamúrias e sem badalação, segue em seu ofício. Firme como o meteorito de Bendengó, encontrado em 1874. A rocha caiu do espaço como bola de fogo no sertão de Canudos, de tantos simbolismos, próximo de Tucano, cidade baiana onde o ator veio ao mundo, no ano da graça de 1933.

 

 Multiplicidade é pouco para definir a mistura fina de  sertanejo e cidadão do mundo, que é Othon Bastos. Advogado Polidoro na novela “Três Irmãs”, da Globo; Corisco imbatível de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Glauber Rocha),  Paulo Honório soberbo de “São Bernardo”( Leon Hirszman), notável coronel Ramiro do recém-lançado filme “Cascalho” (Tuna Espinheira). Intérprete de todos os gêneros, escolas e personagens (dos heróis populares das comedias nordestinas de Cordel aos seres mais complexos das criações de Shakespeare e Brecht), nos palcos de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo ou Londres.

 

 Leio com atraso a matéria da revista semanal, quando a televisão mostra imagens impressionantes do tributo que a multidão em Washington, sob frio da mais de 10 graus abaixo de zero, presta ao afro-americano Barack Hussein Obama. Ele acabara de assumir o mais invejado posto de poder no planeta, apesar do peso monumental da crise que Bush largou sobre seus ombros, antes de, aos tropeções, retirar-se para merecido ostracismo no Texas.

 

 A memória voa da festa americana, até pousar em um alegre e democrático carnaval de Salvador, há mais de 20 anos. O então repórter da sucursal do Jornal do Brasil bate de frente com o artista no meio da rua, a poucos passos da badalada Praça Castro Alves entulhada de foliões. A timidez mandada às favas pela cerveja, cede lugar à emoção que leva ao abraço e ao grito de saudação, que surpreende o artista, apesar da zoada do trio que se aproxima: “Grande Othon Bastos!”.

 

 Era um tempo de carnaval espontâneo, onde participar era o verbo principal. Muito mais importante que olhar à distância, como mero expectador, as loucuras mais impensáveis ao ar livre. Sem peias e sem as cordas discriminatórias dos blocos excludentes, nem os camarotes que privatizam os espaços públicos nos corredores principais da folia, usurpados por novos ricos deslumbrados, “celebridades”, políticos, postulantes a candidatos, mandantes da hora nos governos, misturados com influentes homens de negócio, em estranhas transações, entre a passagem de um bloco e outro.

 

  Olhada agora, em perspectiva, aquela cena em Salvador, não motiva arrependimento nenhum. Na matéria da “Carta Capital”, o artista revela ter ido com o filho ao show do saxofonista Sonny Rollins, no Rio de Janeiro, e foi abordado por um repórter que queria saber por que ele estava lá. “Ora, por que alguém vai a um show? Sou o que construí em 55 aos de carreira. O sucesso é muito relativo. Vivi momentos de auge, mas não tem sentido ficar olhando o passado”, responde. Eis aí mais um ótimo motivo para um abraço.

 

 Levado pelo pai à casa de um médium, quando sonhava em entrar para a Aeronáutica, o jovem Othon ouviu dele que seria algo diferente. Ficaria em um lugar em que as pessoas todas iriam olhá-lo. “Pensei: vou ser chefe de repartição pública”, brinca o ator, que foi além, sem desmentir o vidente de seu destino. O resto da história está contado – e bem – na matéria de Ana Paula.

 

 Só adianto que, pelas mãos do mestre Paschoal Carlos Magno, criador do Teatro do Estudante, Othon foi parar em Londres, e lá passou dois anos estudando na Webber Douglas School. De volta ao País, foi convidado por Geanni Ratto para ensinar na Escola de Teatro da UFBA, no reitorado do professor Edgar Santos. Retornou então à Bahia, quando o Estado reluzia nacionalmente em um de seus períodos mais férteis e ricos de arte e cultura.

 

 Com ajuda de Virgildásio Sena, um prefeito progressista, eleito em 63 e cassado pela ditadura menos de um ano depois, Othon e seus colegas do Teatro dos Novos, ergueram o Teatro Vila Velha, sopro vigoroso do palco baiano e brasileiro. Juracy Magalhães, um governante conservador, também ajudou muito, inclusive doando o terreno, faz questão de lembrar o artista, por justiça.

 

 Mas a tevê é quem o sustenta atualmente, confessa. Vez por outra um diretor de novela vira-se para o elenco e diz: “Este é o Corisco,”revela o artista, sem mágoa. Para ele, o peso do nome e da história pouco conta na televisão. E repete: “É o preço por minhas escolhas. Mas, se paguei, foi o preço da dignidade, o preço de poder me olhar no espelho todos os dias”.

 

 Grande Othon Bastos!

 

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@uol.com.br       

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