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Postado em 20-01-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 20-01-2009 18:25

Vitor Hugo Soares
De Salvador (BA)

Indelicadeza à parte com seu colega e amigo George W. Bush, às vésperas do americano recolher-se ao pedaço do limbo reservado a maus governantes, o gesto do presidente Lula ameaçando jogar sapato em jornalistas, fez sucesso esta semana. Obteve generosos espaços da mídia, ganhou até para a face remodelada que a ministra Dilma inaugurou na Couromodas, o badalado evento paulista de modas e negócios.

Devidamente registrado, em texto e imagens, o cenário é perfeito como signo das relações de poder e de uma era. Entre risos e desconfianças, de parte a parte, pontifica a complicada relação na base do “morde e assopra” que Lula e imprensa mantêm há décadas – desde as históricas lutas da região do ABC. O fenômeno ganhou corpo e atualidade no tiroteio do debate (turbinado por boa dose de hipocrisia dos dois lados) causado pela entrevista publicada na primeira edição de 2009 da revista Piauí.

Fiz uma primeira leitura no calor da hora, em meio ao tiroteio no Saloon. Pedaços de textos “à la volontée”, como dizem os franceses, recolhidos aqui e ali no contra ou a favor passional do bafafá e, por isso mesmo, meio cego ou com instalações trocadas . Ao sabor das ondas que produto jornalístico polêmico, como este, levanta nas variadas tribos, ligadas ou não ao jornalismo.

Tensões e ódios mais aplacados, egos menos ofendidos e inflados, segui o conselho do jornalista Ricardo Kotscho, e reli tudo, em detalhe e com mais atenção, antes de escrever estas linhas assinadas. “A matéria é pequena e vale a pena ser lida (na integralidade e contexto de perguntas e respostas) “para entender um pouco desta dura e delicada relação do presidente Lula com a imprensa”, sugere Kotscho em seu Blog . Tem razão o premiado repórter, testemunha ocular da história e com credibilidade de sobra nos dois lados da discussão.

Aliás, o primeiro e mais significativo contato profissional que tive com os dois (Kotscho e Lula) se deu no mesmo dia, na fase final da campanha da primeira eleição direta para Presidente pós-ditadura. Luiz Inácio da Silva, líder metalúrgico e fundador do PT, nordestino pernambucano criado em São Paulo, brigava ponto a ponto nas pesquisas de opinião com o gaúcho Leonel Brizola (PDT), governador do Rio de Janeiro, para ver qual dos dois passaria ao segundo turno como candidato “das esquerdas”. A este caberia a disputa decisiva com o “bem nascido caçador de marajás” de Alagoas, Fernando Collor de Mello, disparado na frente e, no final, vencedor.

Então a revista Veja, cuja sucursal eu chefiava em Salvador, pautou uma matéria de capa sobre o duelo Lula x Brizola. O candidato petista percorria a Bahia no encerramento da campanha do primeiro turno e fui escalado pelo comando da redação da revista (então nas mãos de Mario Sergio Conti, Thales Alvarenga, falecido, e Paulo Moreira Leite), para acompanhar a comitiva da campanha de Lula. Uma repórter da sucursal do Rio seguia Brizola em seus comícios finais nos pampas. Confesso: o gaúcho, que conheci mais de perto no exílio do Uruguai, era o meu candidato do coração.

Ao ler a entrevista do presidente sobre os jornais, foi esta experiência, pessoal e profissional ao mesmo tempo, que me veio à mente em primeiro lugar. Vejo ainda, na parada em um restaurante à beira da estrada, a caminho de uma passeata em Itabuna ao meio dia, antes do comício à noite em Vitória da Conquista, como Kotscho recebia os repórteres bem ao seu jeito brincalhão: “Olá, você é que é o jornalista fulano de tal?!”, perguntava com ar aparente de admiração. Ante a confirmação do profissional de peito estufado de orgulho, Kotscho arrematava: “Grande merda!”.

Depois do choque, risadas. Rompido o gelo inicial, muitas histórias de jornalismo, de jornalistas, de redações e de donos de jornais, como na experiência parecida vivida por Mario Sérgio e lembrada ao agora presidente, na entrevista que virou debate nacional. No caso baiano lembro bem: sentado em uma mesa próxima, copos de bebida em volta, Lula conversava com assessores e cabos eleitorais, mas sempre ligado no papo dos jornalistas. De vez em quando – àquele tempo não sentia azia ao ler jornais -, o candidato dava “pitacos”. Lançava suas desconfianças em “indiretas” para a mesa de Kotscho e seus acompanhantes, mas endereçadas também às redações com seus editores e donos de poderosas empresas jornalísticas.

“Esta sempre foi uma relação de amor e ódio, dependendo da posição do jornalista na hierarquia das redações já que tudo o que ele e o PT representavam vinha na contra-mão do pensamento único dominante na cúpula da grande imprensa brasileira”, acha Kotscho, que conhece Lula como poucos.

Tenho cá minhas desconfianças também! Acho que há muito mais submerso, além do dito e sugerido tanto no diálogo Lula-Conti, como nas reações à entrevista. Além disso, muitas ilusões se perderam no meio do caminho para os dois lados. O morde e assopra, porém, continua.

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