ARTIGO/Ponto de vista

Abundância e escassez

Joaci Góes

Ao eminente intelectual e magistrado Lourival Trindade!

?Como já dissemos neste espaço, a qualidade do progresso dos diferentes grupos humanos – famílias, empresas, nações -, depende diretamente da natureza da mentalidade dominante, que pode oscilar de muito abundante até a extrema escassez. Em famílias, organizações e sociedades conflagradas, invariavelmente predomina a mentalidade de escassez, em oposição à paz e prosperidade desses contextos, quando regidos pela mentalidade abundante. Abundante é a mentalidade que se orienta pela crença em que a prosperidade ou sucesso do outro não é entrave ao meu, antes tende a ser um fator ancilar de meu avanço, enquanto a mentalidade de escassez se orienta pelo fator de soma zero: se alguém ganha, alguém, necessariamente, perde, diretriz que levou ao naufrágio a União Soviética e todos os experimentos socialistas, sem uma exceção sequer. Vide Cuba, Coreia do Norte e a China, até antes de se entregar ao fascismo que ali passou a viger.

?O reviver dessa reflexão de elementar conhecimento dos que, livres de dissonância cognitiva, se debruçam sobre o estudo das razões da prosperidade e atraso dos povos, vem a propósito da insensata disputa política em torno dos métodos a serem adotados no combate a esse novo Cavaleiro do Apocalipse, chamado Covid-19, que põe de joelhos o Brasil e o mundo. Para gáudio das envergonhadas oposições brasileiras, momentaneamente associadas ao Centrão, intelectuais e à mídia, com o propósito de derrubar o Governo, com as exceções que confirmam a regra, o espírito intimorato, mas não raro temerário e juvenil do Presidente Bolsonaro vem impedindo que se contabilize a seu crédito a emergência de mais um de seus auxiliares como herói nacional, na pessoa do Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, expresso no elevado índice de 76% de aprovação que lhe confere o povo brasileiro.

Curiosamente, quem analisa a contenda, de modo desapaixonado, sobre o modo de combater a peste, conclui não haver qualquer divergência substantiva entre o que pratica o Ministro da Saúde, com o apoio majoritário dos órgãos técnicos, nacionais e estrangeiros, e o que propõe o Presidente da República, visando conciliar a proteção da vida com a manutenção da higidez da saúde econômico-financeira do Brasil. A verdade é que essa conciliação em nada compromete a vida das pessoas. Pelo contrário; protege-a. Tanto é verdade que, como se verá, antes mesmo do que se imaginava, toma corpo, em toda parte, a busca dessa conciliação que nada tem do anunciado conflito populista entre “as almas puras dos socialistas em confronto com os capitalistas selvagens que só pensam no lucro, sem qualquer consideração com o bem-estar dos pobres”. Os exemplos do esforço por essa conciliação se expandem, mundo afora.

?A própria China, onde tudo começou, já superou a crise com um número mínimo de óbitos. A Coréia do Sul vai pelo mesmo caminho, conciliando a proteção da vida com a atividade econômica. Hong Kong, província chinesa de sete milhões de habitantes, distribuídos em, apenas, mil quilômetros quadrados, com uma densidade, portanto, de sete mil pessoas por km², talvez seja o melhor exemplo. Assegurada a segregação social da população em idade escolar, para evitar o contágio de pais e avós, e dos grupos de risco – idosos e doentes crônicos-, a atividade econômica segue seu curso normal, com uma condição por todos observada: 100% das pessoas usam a máscara, em público. O resultado tem sido o mais baixo índice de contaminação e de mortes.

?Tomemos o caso das capitais brasileiras, em geral, e Salvador, em particular. Em lugar do que tem sido praticado, melhor seria que, respeitado o uso obrigatório das máscaras, e as demais práticas de saneamento, as pessoas pudessem caminhar pelas ruas, vazias de automóveis, frequentar nossa extensa orla marítima, exercitando o corpo e os pulmões, sorvendo o ar fresco do mar, de modo a aumentar a resistência ao vírus. Isso seria incomparavelmente mais saudável do que os pobres ficarem aprisionados em seus casebres sem esgoto, sem água de qualidade, sem a higiene básica e sem o mínimo lazer. Poder-se-ia elaborar um programa conjuntural de atividade econômica, com o comércio aberto 24hrs, respeitado um limite operacional de oito horas por empresa, inclusive os Shopping Centers. Certamente, o número de mortes tenderia a diminuir, bem como o rastro de desemprego, falências e sofrimento dos mais pobres.

?Bolsonaro tem razão. Uma pena que se movimente com a leveza de um elefante numa loja de cristais.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo publicado na edição desta quinta-feira, 9, da TB.