ARTIGO

A nobre tarefa de dirigir a Academia de Letras da Bahia

Joaci Góes

Para a Presidente Evelina de Carvalho Sá Hoisel!

Logo mais, à noite, em sua sede no Palacete Góes Calmon, no bairro de Nazaré, a Academia de Letras da Bahia empossa os dezesseis membros de sua nova diretoria para o biênio 2019-2021. Nada mais rotineiro na vida dessa vetusta e venerável instituição que, na contagem mais breve de sua longa e fecunda existência, completa 102 anos neste mês de março, ou 295, se datarmos de 1724, o seu primeiro nascimento, quando o historiador Sebastião da Rocha Pita, liderando o inconformismo dos que não aceitaram a exclusão de nomes do Brasil na Academia Portuguesa de Letras, de 1720, fundaram aqui a Academia dos Esquecidos. A nova Academia Portuguesa abrigava nomes dos mais diferentes rincões do vasto Império Português, à exceção da Terra de Santa Cruz. Com a exclusão de brasileiros, o rabo, Portugal, manifestava o ostensivo empenho de continuar sendo abanado pelo cachorro, o Brasil.

Um ano depois de criada, sem o indispensável apoio oficial, a Academia dos Esquecidos encerrou suas atividades, retomando-as 35 anos mais tarde, em 1759, agora sob o batismo de Academia dos Renascidos, experiência que durou a metade do tempo da primeira, com o agravante da prisão do seu presidente, o mecenas, conselheiro e governador José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melo, conde D´Oeyras, condenado a 17 anos de prisão pelo crime de alta traição que, de fato, não cometera. O suposto crime consistiu em convidar para membro da Academia o Comandante da Armada Real Francesa aqui ancorada. A verdade é que a Corte não via com bons olhos qualquer iniciativa com potencial para fomentar o embrionário espírito independentista na imensa colônia do Atlântico Sul.

Em sua centenária e vigente versão caçula, a ALB foi o produto da larga visão do engenheiro, nascido em Santo Amaro, Arlindo Fragoso, um desses excepcionais construtores da grandeza dos povos. Ele integra a galeria das personalidades raras que pensam grande e realizam o grande que pensam. Ele foi, simultaneamente, um homem de ideias e de ação. Bastaria uma das facetas de sua múltipla formação para consagrá-lo, em domínios tão distintos como a engenharia, a administração pública, o jornalismo, a produção literária, o trabalho legislativo, a ação política – como deputado federal, em duas legislaturas -, a reflexão econômica e financeira, e como notável empreendedor.

Quando nos debruçamos sobre as biografias que se vinculam a esta notável Instituição cultural, o sentimento de honra e de responsabilidade de presidi-la, a partir de hoje, é de natureza a fazer derrear os ombros. E nem queremos nos referir aos notórios Gregório de Matos e Guerra, José da Silva Lisboa, Augusto Teixeira de Freitas, Castro Alves, Rui Barbosa, Afrânio Peixoto, Thales de Azevedo, Luis Viana Filho, Orlando Gomes, Jorge Amado ou João Ubaldo Ribeiro. Sem falar em membros correspondentes do quilate de Olavo Bilac, Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque, Oliveira Lima, João Ribeiro, Clóvis Bevilácqua, Júlio Dantas, Cândido de Figueredo, Antonella Roscilli e Carlos Ayres Brito. Os demais nomes grandiosos que integram sua história dizem de seu significado na vida cultural da Bahia e do Brasil. Vejamos alguns, à vol d´oiseau: Adalício Nogueira, Adriano Pondé, Agrário de Menezes, Aloísio de Carvalho Filho, Altamirando Requião, André Rebouças, Anna Amélia Vieira Nascimento, Machado Neto, Augusto Alexandre Machado, D. Avelar Brandão Vilela, Dom Lucas Moreira Neves, Padre Sadoc da Natividade, Bernardino de Souza, Cipriano Barata, Clementino Fraga, Consuelo Novais Sampaio, Consuelo Pondé de Sena, Edgard Santos, Edith Mendes da Gama e Abreu, Eduardo Espínola, Pethion de Villar, Ernesto Carneiro Ribeiro, Simões Filho, Estácio de Lima, Filinto Bastos, Francisco e Otávio Mangabeira, Magalhães Neto, Xavier Marques, Gerson Pereira dos Santos, Godofredo Filho, Guido Guerra, Hélio Simões, Hélio Pólvora, Hildegardes Vianna, Isaias Alves, James Amado, Jayme Sá Menezes, Jayme Junqueira Ayres, João Falcão, João Pinto Dantas, Barão de Cotegipe, Jorge Calmon, Joaquim Jerônimo Fernandes da Cunha, Josafá Marinho, José Calasans, J.J. Seabra, Visconde do Rio Branco, José Silveira, Nabuco de Araújo, Afrânio Peixoto, Lafayete Spínola, Luis Anselmo da Fonseca, Luís Navarro de Brito, Macedo Costa, Junqueira Freire, Luis Monteiro, Pinto de Carvalho, Pinto de Aguiar, Manoel Vitorino, Miguel Calmon, avô e Neto, Myriam Fraga, Nestor Duarte, Odorico Tavares, Rubem Nogueira, Rui Santos, Severino Vieira, Suzana Alice, Teodoro Sampaio, Frei Vicente do Salvador, Walfrido Morais, Walter da Silveira, Wilson Lins, Zacarias de Góes e Vasconcellos, Zélia Amado e Zittelman de Oliva, para ficarmos nos mais conhecidos.

A Academia de Letras da Bahia, com o peso de sua tradição, respeitabilidade, prestígio moral e intelectual dos seus integrantes e sem qualquer vínculo de natureza político-partidária, deve exercer papel de relevo junto ao poder público no sentido de fazer da educação o instrumento fundamental do desenvolvimento de nosso Estado, sem o qual o exercício da verdadeira cidadania continuará sendo instrumento de chantagem eleitoral. É verdade que o principal obstáculo para alcançar esse desiderato reside na dificuldade da grande maioria dos baianos, composta de analfabetos, incluídos os funcionais, compreender a importância da educação na condução de suas vidas, conforme apurado em sucessivas pesquisas de campo.

É para desincumbirmo-nos a contento das elevadas responsabilidades de dirigir tão novel instituição que pedimos e esperamos receber o apoio dos baianos, de todos os naipes sociais, políticos e econômicos.

Joaci Góes , escritor, ex-diretor da Tribuna da Bahia, assumiu nesta quinta-feira, 21, a presidência da Academia de Letras da Bahia-ABL. Texto originalmente publicado na TB, em 21/3.