No dia em que não puder visitar meu pai em sua nova cidade vocês me avisam! Meu deus do céu!”

Carlos Bolsonaro, vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira, 2o, em sua conta no Twitter, em reação dirigida a O Globo/Política.

Herdeiros de Nietcháiev

Herdeiros de Nietcháiev
FERNANDO VICENTE

 

O assassinato do jovem estudante Ivanov, em novembro de 1869, por um bando terrorista, causou uma grande impressão em toda a Rússia. Ivanov, que pertencia ao grupo, anunciou aos companheiros que tinha decidido se separar deles. O chefe, Serguei Nietcháiev, um discípulo do pensador anarquista Mikhail Bakunin e autor de um folheto que circulou amplamente, O Catecismo de um Revolucionário, convenceu os membros da organização de que havia o perigo de que ele os denunciasse à polícia. Então, executaram-no. A polícia czarista capturou muito rápido o bando, menos Nietcháiev, que tinha fugido para a Suíça, mas depois foi extraditado e morreu na prisão em 1882.

Uma das boas coisas que resultaram desse crime foi Os Demônios, o romance de F. M. Dostoiévski, que acabo de reler depois de muitos anos, e que ele escreveu para mostrar sua cáustica rejeição aos que, como o bando de Nietcháiev, acreditavam que mediante a violência poderiam resolver os problemas políticos e sociais, e, de um modo mais geral, buscavam fora da Rússia, na Europa culta, os modelos que, a seu ver, o país deveria importar para se transformar em uma sociedade moderna, próspera e democrática. Ele era, então, quando falava de política, um “reacionário”, bem o oposto dos que, como Herzen e Turguêniev, argumentavam que a Rússia para sair do despotismo czarista e da barbárie social deveria “europeizar-se”, tornar-se secular, romper com o obscurantismo religioso e optar por governos eleitos em vez do anacronismo czarista. Estas tinham sido as convicções do Dostoiéviski jovem, quando era membro do Círculo Petrashevski, de ideias socialistas, que em 1849 foi arrasado pela polícia de Nicolau I, e ele próprio condenado à execução por fuzilamento. Entretanto, foi vítima de uma simulação de execução e depois passou quatro anos na Sibéria. Ajudou-o a sobreviver àquela experiência a conversão religiosa e a adesão às tradições populares e, pode-se dizer, uma rejeição que beirava a xenofobia por toda aquela corrente intelectual “europeísta” que via nos socialistas utópicos, como Saint-Simon, Fourier, Proudhon e Louis Blanc, as ideias e princípios que poderiam salvar a Rússia do atraso e da injustiça em que estava imersa.

Quando Dostoiévski começou a escrever Os Demônios, estava em Dresden, profundamente desgostoso com sua experiência europeia e cheio de nostalgia da terra natal

Como Balzac, quando escrevia romances o “reacionário” Dostoiévski deixava de ser assim e se tornava alguém muito diferente; não exatamente um progressista, mas, sim, um enlouquecido libertário, alguém que explorava a intimidade humana com uma audácia sem limites, escavando nas profundezas da mente ou da alma (para designar de alguma maneira aquilo que só muito depois Freud chamaria de subconsciente) as raízes da crueldade e da violência humana. Em Os Demônios se observa de maneira claríssima esta extraordinária transformação. Não há dúvida de que Serguei Nietcháiev é o modelo que Dostoiévski usou para construir a personagem de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, um ideólogo mais ou menos estúpido que para salvar a humanidade está disposto primeiro a fazê-la desaparecer por meio de crimes, incêndios e atrocidades diversas.

Mas, e o extraordinário Nikolai Stavróguin, o verdadeiro herói do romance, de onde o tirou? Para escrever aquele capítulo, A Vida de um Grande Pecador, não bastava a Dostoiévski recorrer ao espectro dos tipos políticos, sociais ou intelectuais de seu tempo. Era indispensável que fechasse os olhos, se deixasse abandonar à intuição e à imaginação que, no seu caso, como no de Balzac, eram sempre mais importantes que as ideias, e se guiasse pelos próprios fantasmas até as raízes mesmas da crueldade humana, onde moram o terror, as horríveis tentações, aqueles demônios que, na vida cotidiana, passam muitas vezes desapercebidos por trás das boas maneiras que as convenções ditam. Chamo Stavróguin de “herói” porque acho que é uma das personagens mais genialmente concebidas na história da literatura, mas muito ciente de que é a encarnação do mal, de tudo o que pode haver de repulsivo em um ser humano, um verdadeiro demônio. Como Balzac, tolerando na hora de escrever seus romances que os instintos e intuições prevalecessem sobre as convicções, Dostoiévski traçou em Os Demônios uma radiografia que permite aos seres humanos descobrirem os fundos mais tortuosos e indômitos da personalidade, e a secreta raiz de boa parte das ignomínias que desafiam a cada dia em todo o mundo aquilo que chamamos de civilização, a frágil pontezinha em que esta se equilibra sobre aquele abismo estrondoso onde se aninham os terrores.

Estou em uma pequena aldeia suíça cercada de neve, montanhas e lagos, onde a vida parece muito sossegada e aprazível, mas reler este livro soberbo me mostra que não devo confundir aparências com realidades, as que, com frequência, estão a anos-luz destas. Estes discretos caminhantes e garotas que fazem ginástica com os quais troco acenos e cumprimentos nas manhãs poderiam, como o carismático Nikolai Stavróguin do romance, cravar-me uma faca nas costas e depois jogar meu cadáver aos cachorros, ou eles mesmos comerem-no.

Como Balzac, quando escrevia romances o “reacionário” Dostoiévski deixava de ser assim e se tornava alguém muito diferente

O romance me mostra também que pelas mãos dos velhos mestres tudo já foi inventado há anos e séculos, e que as vanguardas costumam “revolucionar” as formas que tinham sido revolucionadas mil e uma vezes pelos clássicos. Em Os Demônios, a astúcia com que o narrador está concebido é deslumbrante, mas é dificílimo comprovar isso quando se está tomado pelo feitiço da história, por seu lento e absorvente desenrolar. À primeira vista, o romance é narrado por um narrador-personagem, dom Anton Lavrentiévitch, um jovem solteirão que frequenta os salões de Várvara Petrovna, é amigo de alguns personagens, como Kirilov, Shatov e Piotr Verjovenski, e até sente muita atração por Liza Tushina, embora nunca se atreva a dizê-lo. Um narrador personagem dá um toque de testemunha próxima da história, pois se conta ao mesmo tempo que conta, mas também tem suas limitações, pois só pode narrar aquilo que vê, ouve ou lhe dizem, e não pode seguir os outros personagens quando se distanciam dele e se recolhem à intimidade. No entanto, de repente, com o romance já avançado, o leitor descobre que aquele narrador-personagem se volatilizou e foi substituído por outro, o narrador onisciente, capaz de narrar aquilo que o outro não viu nem pôde ver nem saber, como as sensações, emoções e pensamentos das demais personagens quando se afastam de quem narra. Que haja dois narradores no romance não incomoda em absoluto a leitura, e é possível que muitíssimos leitores nem sequer percebam, pelo modo sutil com que se produzem as trocas entre um e outro narrador, que se alternam para contar a história com tanta sabedoria. Somente se esquecendo da história e se concentrando no modo como está sendo contada é que se pode notar essas transições. E estas duas perspectivas com que a história é contada são complementares, aproximam e afastam a visão, destacando os silêncios, as distâncias e as emoções mediante as quais o narrador mantém a atenção do leitor subjugada

Quando Dostoiévski começou a escrever Os Demônios, no final de 1869, estava em Dresden, profundamente desgostoso com sua experiência europeia e cheio de nostalgia da terra natal. Acreditava estar escrevendo algo como uma diatribe contra a violência política, mas seu romance é muito mais que isso, uma exploração profunda da intimidade humana, de todas as violências que sofremos e cometemos e foram cometidas e se cometerão. Ele, quando não escrevia, acreditava que a salvação da Rússia estava em buscar o remédio em sua própria história, em suas crenças e em sua tradição. A seus leitores nos deixou, porém, com a sensação de que, pura e simplesmente, sendo os seres humanos o que somos, não há salvação.

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BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

Para Pedro Nery, apesar de alguns pontos cegos em projeto apresentado por Bolsonaro, se aprovadas, medidas devem conseguir reduzir as desigualdades na Previdência

Pedro Fernando Nery. Divulgação / Acervo pessoal
São Paulo

 

O projeto da reforma da Previdência apresentado nesta quarta-feira pelo presidente Jair Bolsonaro ao Congresso ainda tem alguns pontos cegos. Não há uma proposta, por exemplo, para a aposentadoria de militares, e faltam detalhes nas regras para o Benefício de Prestação Continuada (BPC) que atendem os idosos miseráveis – só passariam a receber um salário mínimo após os 70 anos e, antes, dos 60 anos até 70, não fica clara qual é a base de cálculo nem a maneira de reajuste do benefício de 400 reais proposto. De maneira geral, porém, as medidas devem conseguir reduzir a desigualdade na Previdência, avalia Pedro Fernando Nery, especialista em economia e reformas e autor do livro Reforma da Previdência – Por que o Brasil não pode esperar?.

Nery, um consultor legislativo que vem acompanhando o debate desde a proposta de Michel Temer do tema, publicou em sua conta no Twitter algumas observações enquanto o Governo apresentava o novo projeto pela manhã. Pela WhtasApp, falou com a reportagem sobre os pontos mais relevantes da reforma, em sua avaliação.

Pergunta. Você diz que reforma é “mais branda no mais pobre e mais dura no mais rico”. Por quê?

Resposta. Em relação à proposta original de Michel Temer [a reforma do ex-presidente foi iniciada em 2016 e interrompida em 2018, tanto por falta de apoio no Congresso, quanto por causa da intervenção federal no Rio, que impedia, por força de lei, qualquer aprovação de PEC]. Na reforma de Temer, a proposta aumentava o tempo mínimo de contribuição de 15 anos para 25 anos. Na de Bolsonaro, aumenta de 15 para 20 anos. É um ponto importante por conta do desemprego e da informalidade, principalmente para mulheres e principalmente para mulheres mães. Na reforma de Temer, a idade mínima da mulher trabalhadora rural subia de 55 para 65, e a do homem de 60 para 65. Na de Bolsonaro, apenas a da mulher sobe, e apenas de 55 para 60. Na de Temer, a cobertura do BPC [Benefício de Prestação Continuada] diminuía porque a idade mínima subia de 65 para 70. Na de Bolsonaro, ela cai de 65 para 60. Mas ainda é uma mudança controversa porque o valor do benefício foi reduzido para quem não tiver 70 anos, de 1 salário mínimo para 400 reais.

P. Sobre o BPC, você fala em “bode na sala”. Essa é a parte mais sensível do pacote?

R. Acho que sim. Porque a mudança do valor é bastante abrupta, de 1.000 reais para 400 reais, não é linear. Isto é, não sobe aos pouquinhos. E também não há transição. Vejo espaço fiscal para aumentar a cobertura dando os tais 400 reais para quem tem entre 60 e 65 anos, sem diminuir o salário mínimo de quem tem entre 65 e 70 anos.

P. Você fala então em reduzir o tempo em que a pessoa ganharia só 400 reais, de 10 anos, como diz a proposta, para cinco anos?

R. Sim. E hoje quem tem 60 anos não recebe nada, porque o BPC só vale a partir dos 65 anos.

P. Esse ponto poderia ser uma espécie de moeda de troca para fazer o projeto passar?

R. É possível. O Congresso sempre alterou reformas da Previdência, desde o Governo Fernando Henrique.

P. Neste caso, você citaria algum outro ponto que tem maior possibilidade de ser alterado?

R. Me parece promissor também a restrição aos Refis e o combate à dívida ativa [a proposta prevê limitar o prazo para parcelamento de dívidas previdenciárias. Isso pode ajudar a cobrar grandes devedores, que têm capacidade de pagamento, mas que aderem a programas de recuperação fiscal, os chamados Refis, para alongar o pagamento da dívida. A entrevista coletiva de hoje [na qual o projeto foi apresentado] tinha cinco técnicos, sendo três procuradores da Fazenda e um auditor da Receita e nenhum economista, tirando Rogério Marinho [secretário especial da Previdência Social].

P. De maneira geral, é possível dizer que as propostas contidas nesse projeto dão conta de diminuir de fato a desigualdade da Previdência?

R. Acho que sim. As medidas foram contundentes em relação aos mais ricos da Previdência. São eles os servidores, que passarão a ter contribuição muito maior e passarão a se aposentar bem mais tarde se quiserem manter privilégios como a integralidade e a paridade. E há finalmente também a idade mínima para aposentadoria por tempo de contribuição no INSS, com uma transição mais rápida. Hoje em média uma mulher se aposenta aos 52 nesse benefício, mas aos 65 no BPC. Não faz sentido tamanho subsídio ao mais rico.

 

 

 

DO JORNAL ESTADO DE S. PAULO (PUBLICADO TAMBÉM EM A TARDE)

Moro vai a Paris

Um dia após apresentar ao Congresso seu pacote anticrime, Sergio Moro viajou hoje para Paris.

O ministro participará de reuniões técnicas do Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (GAFI), que reúne governos de 36 países.

Para se manter no grupo, o Brasil precisa concluir a aprovação de uma lei que permite um bloqueio mais rápido de ativos de grupos terroristas apontados pelo Comitê de Segurança da ONU.

A proposta do Executivo foi aprovada com ajustes na Câmara na semana passada e agora vai ao Senado.

Hoje à noite, Moro será recebido pelo embaixador Carlos Márcio Cozendey. O ministro estará de volta ao Brasil na sexta.

fev
21

Postado em 21-02-2019 00:06

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 21-02-2019 00:06



 

Bira, no portal de humor gráfico

 

fev
21

Postado em 21-02-2019 00:03

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 21-02-2019 00:03

Do Jornal do Brasil

 

Os empregados aposentados que voltarem a trabalhar não terão o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) recolhido pelo empregador. A mudança consta da proposta de reforma da Previdência enviada hoje (20) ao Congresso Nacional.

O texto também estabelece que o aposentado deixará de receber a multa de 40% do FGTS em caso de demissão. Esses dois pontos foram incluídos na proposta de emenda à Constituição e precisam ser aprovados por três quintos da Câmara dos Deputados e do Senado em dois turnos.

Macaque in the trees
O secretário especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, durante entrevista coletiva para detalhar a reforma da Previdência (Foto: TV NBR)

Segundo o secretário de Previdência da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Leonardo Rolim, o governo quer mudar as regras por entender que o empregado aposentado já está protegido pela Previdência Social.

Em relação às contratações anteriores à promulgação da reforma da Previdência, o aposentado demitido poderá sacar os depósitos dos empregados no Fundo de Garantia, mas sem a multa de 40%. Para empregos futuros, no entanto, o aposentado não terá mais direito ao FGTS.

Anistiados políticos

A proposta de reforma da Previdência também prevê que os anistiados políticos passarão a contribuir para a seguridade social nos mesmos termos da contribuição do aposentado e do pensionista da Previdência dos Servidores Públicos Federais. O governo também quer proibir a acumulação da reparação mensal de anistiado político com a aposentadoria. O anistiado poderá escolher receber o maior benefício.

A proposta de reforma da Previdência foi detalhada no Ministério da Economia numa coletiva que durou quatro horas e meia. Participaram da entrevista o secretário especial adjunto de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco; o secretário de Previdência, Leonardo Rolim, e o secretário adjunto de Previdência, Narlon Gutierre.

Também concederamm explicações o procurador-geral adjunto de Gestão da Dívida Ativa da União, Cristiano Neuenschwander, e o diretor de Programa da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, Felipe Portela. No meio da coletiva, o secretário Especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, apareceu e conversou por alguns momentos com os jornalistas.

fev
20

Postado em 20-02-2019 00:30

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 20-02-2019 00:30

 
 Carla Jiménez
Bolsonaro em cerimônia em Brasília.
Bolsonaro em cerimônia em Brasília. EVARISTO SA AFP

A queda de braço iniciada na semana passada entre Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, e o agora ex-ministro Gustavo Bebianno deixou a dúvida se o Brasil estava diante de novos gênios da política, ou de um clã deslumbrado com o poder. A resposta fica em aberto, mas a única verdade que o episódio com Bebianno retrata é que este início do Governo Bolsonaro não está tropeçando em adversários políticos de outros partidos como era de se esperar. Ele esbarra nos fígados do presidente e do filho Carlos. Os Bolsonaros não se importaram em fritar publicamente Bebianno, o homem que liderou a campanha eleitoral vitoriosa do atual presidente, quando ocupava o cargo de presidente do PSL. Foi tratado como mentiroso por pai e filho, à luz do dia, por ele ter dito à imprensa que havia conversado com o presidente no dia anterior por três vezes.

O azedume dos Bolsonaros tinha menos a ver com o diz-que-diz para jornais de seu antigo aliado, e mais com as notícias da candidatura laranjas do PSL que receberam milhares de reais na reta final da campanha apenas para cumprir tabela, sem chance de serem eleitas. “Querer empurrar essa batata quente desse dinheiro lá para a candidata de Pernambuco pro meu colo, aí não vai dar certo. Aí é desonestidade e falta de caráter”, disse Bolsonaro num áudio enviado a Bebianno, que veio à tona nesta terça. O presidente se refere à candidatura de Maria de Lourdes Paixão, que recebeu 400.000 reais do fundo partidário do PSL apenas três dias antes da eleição, segundo levantou o jornal Folha de S. Paulo. Lourdes só teve 274 votos.Com os ânimos tão exaltados, o presidente preferiu estender o mistério sobre o destino de seu ministro até esta segunda-feira. Afinou o discurso com a equipe – leia-se, seguraram os dedos antes de escrever nas redes sociais – e fecharam uma agenda positiva para atenuar o desgaste da crise que se instalou com o bode na sala das laranjas do PSL. Mas o desfecho foi conhecido, com o anúncio da decisão de “foro íntimo” do presidente de exonerar seu agora ex-ministro. Intimidade, contudo, é uma palavra estranha para quem tuíta e governa pelas redes sociais.

Bolsonaro ainda teve a ideia de gravar um vídeo reconhecendo a dedicação de Bebianno à frente da coordenação da campanha eleitoral que o fez chegar ao Palácio do Planalto. Mas era uma gota de água numa enorme ferida no ego.

Advogado que ocupou o ministério da Secretaria-Geral de Governo, Bebianno mostrou que o seu sangue também ferveu. Além de publicar no Instagram um versinho sobre lealdade de amigos no final de semana e trocar a foto de Bolsonaro do seu perfil, teve áudios vazados para a imprensa com os diálogos entre ele e o presidente que lhe dão razão quando dizia que havia falado com o presidente por três vezes por mensagens de WhatsApp. Não se sabe se ele foi o autor do vazamento, mas tudo leva a crer que sim. Se amor com amor se paga, então para a bílis deve valer o mesmo.

Até a semana passada, quando Bebianno ainda integrava a equipe do Governo, o Brasil esperava que a volta de Bolsonaro a Brasília após 17 dias de convalescência teria a reforma da Previdência como carro-chefe. Era o assunto mais importante a tratar depois da sua estadia em São Paulo para recuperar-se da última operação para a retirada da bolsa de colostomia, sequela do atentado a faca que sofreu durante a campanha. Mas ele nem havia saído do hospital quando o imbróglio começou com Bebianno.

A ousadia do pai e filho de rifar um ministro nas redes sociais levava a crer que tivessem calculado todos os riscos de uma decisão do gênero. Mas os áudios desta terça tiraram Bolsonaro do papel de potencial estadista para o de bombeiro que precisa apagar incêndios para manter unidade na base diante das ambições de votar projetos de grande monta. Desde que assumiu, o presidente não conseguiu levantar a cabeça, mantendo-se a reboque de polêmicas de frases de efeito de ministros e de alfinetadas distribuídas a desafetos e à esquerda.

Com o fígado, não há pontes que se construam numa democracia. Seu jeito beligerante foi bom para ganhar a torcida anti-PT em um ano eleitoral. Mas em menos de dois meses esse método já demonstrou fissuras entre seus apoiadores, muitos que criticaram o modo intempestivo como demitiu Bebianno. O áudio vazado nesta terça demonstra que Bolsonaro tinha razão para reclamar do ex-ministro. Mas falta coerência quando ele mantém o ministro do Turismo, Marcelo Antônio, por ter patrocinado outras candidaturas laranja em Minas Gerais. Eleito com a força das redes sociais, o presidente teve uma ascensão meteórica e surpreendente. A velocidade digital, no entanto, é implacável como nos reality shows da TV. Quem não responde pelo que diz ou escreve perde a vez e a audiência.

“La Vie en Rose”, Grace Jones: o arranjo surpreendente e a arrasadora interpretação de Grace Jones de um dos temas musicais mais clássicos e famosos da canção francesa, na inesquecível sequencia do desfile final no premiado filme “Pret-à-Porter”,  de Robert Altmann, de elenco grandioso e multimilionário, encabeçado por Marcelo Mastroianni e Sophia Loren. Vai aqui em memória ao legendário estilista que ontem partiu em Paris. R.I.P.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

fev
20

Postado em 20-02-2019 00:25

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 20-02-2019 00:25

Karl Lagerfeld

 O estilista Karl Lagerfeld. CAROLINE SEIDEL AFP
París

Karl Lagerfeld costumava dizer que sua missão na moda era fruto de um pacto semelhante ao que Fausto estabeleceu com o diabo, pelo qual o insatisfeito protagonista da lenda alemã trocava sua alma pela sabedoria ilimitada e os gozos do mundano. Esse foi o modus vivendi do grande estilista, morto nesta terça-feira em Paris aos 85 anos, segundo confirmou a Chanel, histórica grife da qual era diretor artístico desde 1983. Não foram revelados os motivos de seu falecimento, ocorrido no Hospital Americano de Neuilly-sur-Seine, a rica localidade vizinha a Paris, em cujo pronto-socorro deu entrada na noite de segunda-feira.

As dúvidas sobre seu estado de saúde vinham crescendo desde meados de janeiro, quando se ausentou do último desfile de alta costura da Chanel. “O senhor Lagerfeld se sentia cansado nesta manhã. Desejamos a ele uma pronta recuperação”, leu na ocasião a voz em off de seu amigo Michel Gaubert, encarregado do desenho musical de todas as suas apresentações. Mas essa melhora nunca ocorreu. Sua morte, somada às do Saint Laurent, Givenchy e Alaïa, representa o desaparecimento quase definitivo de uma geração de estilistas da qual o único sobrevivente agora é Valentino Garavani.

Lagerfeld nasceu em 1933, num bairro residencial da zona oeste de Hamburgo, durante a etapa final da República de Weimar e em plena escalada do nazismo. Com a ascensão de Hitler ao poder, seu pai, Otto Lagerfeld, empresário que tinha feito fortuna com a importação de leite condensado, decidiu se afastar da cidade por medo dos tumultos e instalou a família em um lugar isolado, 40 quilômetros ao norte. Mas o personagem-chave dessa etapa é sua mãe, Elisabeth, que teria vendido lingerie na Berlim do entreguerras, uma mulher inflexível, porém protetora, que nunca hesitou em defender o jovem Karl dos insultos dos outros meninos. Em tempos de estética nazista, Lagerfeld preferia se vestir com excentricidade, ostentando uma longa cabeleira e traje tirolês. Um sinal premonitório: o mítico traje de tweed da Chanel, peça-estrela que passou décadas sendo reinventada, inspirava-se nessa mesma tradição.

Karl Lagerfeld, com Nadja Auermann e Naomi Campbell.
Karl Lagerfeld, com Nadja Auermann e Naomi Campbell. Liobel Cironneau AP
 Aos 19 anos, convicto de que queria trabalhar na moda, Lagerfeld se mudou para Paris disposto a se transformar no mais francês dos franceses. “Não é uma questão de patriotismo, mas sim de estética”, costumava dizer. Em 1954, ganhou um concurso de casacos organizado pela marca de lã Woolmark. Ao mesmo tempo, outro jovem estilista com aspecto de seminarista vencia na categoria mais nobre, a dos vestidos. Seu nome era Yves Saint Laurent. Seria o início de uma longa relação de imitação e rivalidade, que chegou ao auge quando Jacques de Bascher, dândi aristocrata e venenoso, habitué dos clubes homossexuais da noite parisiense, começou a manter relações simultâneas com os dois. Apesar de tudo, Lagerfeld conviveu com De Bascher até sua morte por AIDS em 1989. Desde então, não se soube de nenhum outro relacionamento amoroso desse estilista que se definia como “uma ninfomaníaca do trabalho”.

Lagerfeld fez parte da geração que promoveu a decisiva transição da alta costura para o prêt-à-porter. Formou-se junto com as grifes Balmain e Patou, da qual se tornaria diretor artístico em 1958. Meia década depois, foi contratado pela Chloé como estilista, cargo que conciliou com sua colaboração para a Fendi, marca romana para a qual continuou trabalhando até sua morte. Lagerfeld não tardaria a reinar em Paris, transformando-se no mais culto de todos os frívolos, dono de uma gigantesca biblioteca e apaixonado pela história do século XVIII. O estilista também liderou um clã um pouco mais cosmopolita que o de Saint Laurent, no qual figuravam o ilustrador porto-riquenho Antonio López, a editora italiana Anna Piaggi e a modelo Pat Cleveland, assídua da Factory de Warhol. Lagerfeld chegou a interpretar um pequeno papel em L’Amour, filme experimental que o artista rodou em Paris nos anos setenta.

Karl Lagerfeld em alguns de seus desfiles.
Karl Lagerfeld em alguns de seus desfiles. TORU YAMANAKA PATRICK KOVARIK PIERRE VERDY AFP
 

Em 1982, os irmãos Wertheimer, donos da Chanel, procuram Lagerfeld propondo um contrato de um milhão de dólares anuais, com o objetivo de relançar uma velha grife que só era usada por ministras de centro-direita. Em questão de meses, ele conseguiu transformar sua reputação, vestindo a modelo Inès de la Fressange, que se tornaria sua principal embaixadora, e também Carolina de Mônaco e a atriz Isabelle Adjani, entre outras. Segundo Paloma Picasso, essa contratação representaria “um grande salto adiante e uma punhalada em Yves”, a quem Coco Chanel tinha designado como seu herdeiro natural antes de morrer. Lagerfeld introduziu os jeans e os tênis nas suas coleções e alcançou a equação perfeita ente mudança e continuidade, marca pessoal e respeito ao legado histórico.

Com Lagerfeld, a própria natureza do seu ofício mudou. Um estilista já não é mais apenas um profissional que entende de cortes e padrões, e sim um diretor artístico encarregado de toda a dimensão estética de uma marca. À frente da Chanel, Lagerfeld inventa os desfiles espetaculares, abre-se às coleções-cápsula, conquista as redes sociais e transforma uma marca poeirenta em um império global que fatura mais de 33 milhões de reais por ano. Lagerfeld fez para si uma fantasia sob medida, com seu inalterável uniforme composto de terno negro, camisa branca, rabo-de-cavalo e óculos escuros, graças aos quais conseguia esconder “um olhar de cachorro bonzinho” que nunca quis deixar “à vista do populacho”. Com seu temido desaparecimento, a moda não terá outro remédio senão tornar a se transformar. Mas esse terá sido, afinal de contas, o principal ensinamento de um estilista para quem a mudança foi a forma mais saudável de sobrevivência.

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