ARTIGO (PONTO DE VISTA)

 

O ano começou
Joaci Góes

Aos queridos amigos Rosana e Aleilton Fonseca!

Aumenta a consolidação do entendimento segundo o qual, na Bahia, o ano econômico, encerrado a 08 de dezembro, com o feriado dedicado a Nossa Senhora da Conceição da Praia, se inicia na segunda-feira depois do carnaval. Nessa linha de raciocínio, ainda temos esta sexta, sábado e domingo para descansar dos 84 dias de férias coletivas. É claro que nos referimos àquele afortunado segmento populacional que não conhece as agruras de parcela ponderável da população que tem que matar um leão a cada dia para assegurar a continuidade da sobrevivência.

Essa prática, que já vem de longe, tem servido de base para a preservação da famigerada e injusta imagem dos baianos como um povo dedicado ao ócio e à indolência, e, por via de consequência, ao exercício de sua vocação de gigolôs da Pátria, condição reputada invejável pelo cineasta e aforista famoso Sacha Guitry, nascido na Rússia, em 1885, e falecido em Paris, em 1957, a julgar por sua conclusão, segundo a qual “a gigolotagem é a mais nobre profissão do Homem”.

Se algum reparo merecem os baianos, por sua alegada postura contemplativa, diante da vida, é o de não saberem extrair, na devida extensão e intensidade, as vantagens oriundas dessa sua arguida inclinação para o ócio, em face da nítida vocação da Bahia para o lazer, as artes e a cultura, em geral, e das profundas alterações, em curso acelerado, nas maneiras de trabalhar e produzir na sociedade do conhecimento em que estamos imersos, cada vez menos dependente do modo tradicional que vincula a produtividade ao tempo pessoal dedicado a satisfazer, pela produção de bens e serviços, as demandas do consumismo social.

Em razão disso, quanto mais duradoura e intensa a dedicação ao far niente dos mais bem aquinhoados, maiores serão as oportunidades de trabalho que se abrem para aproveitar a mão de obra dos menos favorecidos pela fortuna, tendência que se aprofunda e amplia mundo afora. A Bahia terá muito a lucrar, em riqueza material e bem-estar para o seu povo, quando for capaz de se organizar para o aproveitamento do seu enorme potencial lúdico, a ser usufruído num mundo em que, inevitavelmente, aumenta o tempo livre das pessoas, sequiosas pelo acesso a meios aptos a vencer o tédio, pelo exercício do ócio criativo e construtivo, na linha do que tem sido a pregação, dentre muitos, do italiano Domênico De Masi.

Nessa conexão, registramos, com alegria, o estímulo conjunto da Academia de Letras da Bahia e da Secretaria de Turismo do Estado, para a organização da Caravana Edivaldo Boaventura que no dia 14 de março próximo, um sábado, data de nascimento de Castro Alves, visitará a casa onde nasceu o maior poeta das Américas. A programação inclui almoço num hotel-fazenda em Muritiba, com vista panorâmica para as águas da Barragem de Pedra do Cavalo e as históricas cidades de São Felix e a heroica Cachoeira. Observe-se que, há décadas, anualmente, sai uma caravana do Rio Grande do Sul, a quatro mil quilômetros, para cumprir este itinerário, enquanto os baianos retardam em oferecer condições para o conhecimento de muitos dos seus monumentos históricos, a exemplo das casas onde nasceram e viveram parte de suas vidas, em Salvador, personalidades como o próprio Castro Alves, Rui Barbosa e Luis Gama, o grande abolicionista, filho de Luiza Mahin, a musa da Rebelião dos Malês, em 1835, tão bem retratada nos romances Um defeito de cor, da mineira Ana Maria Gonçalves, e Luiza Mahin, a história de amor e luta da líder do maior movimento urbano de rebelião escrava no Brasil, de Armando Avena.

O Secretário de Turismo, Fausto Franco, que, no ano passado, reabilitou o planger dos sinos em nossas catedrais, com grande aceitação popular, contará, no ano corrente, com o apoio da Academia de Letras da Bahia e de todas as entidades culturais do estado para devolver à visitação o berço desses nomes tutelares, inclusive a transformação da Chácara da Boa Vista, onde Castro Alves viveu, no Museu da Libertação, conforme requerimento, em carta aberta, encaminhado ao Governador do Estado.

Sem dúvida, o gosto pelas coisas da cultura e das festas, em geral, deve ser contabilizado como uma das características mais marcantes e atraentes do povo baiano.

Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo publicado nesta quinta-feira, 27/2, na TB.