É surreal e extremamente vergonhoso ver setores da grande mídia debocharem do relato da futura ministra Damares Alves sobre a fé em Jesus Cristo, que a livrou de um suicídio desejado por conta de abusos sofridos na infância. Lamentável”.

Jair Bolsonaro, presidente eleito da República (PSL) , em postagem no seu endereço pessoal do Twitter, condenando o que chamou de “deboche preconceituoso de parte da mídia”, em relação ao vídeo postado por Damares  Alves nas redes sociais.

dez
17

Postado em 17-12-2018 00:29

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 17-12-2018 00:29

 
Elisa Martín Ortega
Woody Allen
O diretor de cinema Woody Allen. Getty Images

 

Woody Allen desapareceu. Condenado ao ostracismo depois das acusações de abuso por parte de sua filha adotiva Dylan Farrow, repudiado por muitos dos atores que trabalharam com ele e grande parte da opinião pública, o diretor caiu completamente em desgraça; parece que seu último filme sequer chegará a estrear e que é muito pouco provável que encontre meios de fazer outro. Haverá quem pense que nosso mundo assim é um pouco mais justo. Eu, talvez levada por minhas fraquezas, não consigo deixar de sentir que perdi alguma coisa. E gostaria de expressar isso que perdi em termos de gratidão.

Quando era adolescente, com frequência fantasiava com a ideia de escrever uma carta a Woody Allen. Mas meus parcos conhecimentos de inglês me dissuadiram várias vezes. Gostaria de dizer a ele algo tão simples, ou tão absurdo vindo de uma garota de dezesseis anos, como que meu alter ego: que tinha certeza de que nunca haveria ninguém no mundo que me compreendesse mais do que ele. Em minha vida de adolescente incompreendida, uma realidade da qual —estava convencida— só uma conversa com Woody Allen poderia me salvar, seus filmes se tornaram um talismã e uma obsessão. Quando os descobri comecei a afirmar, diante da hilaridade de todos os membros de minha família, que Woody Allen era o homem mais atraente que já vira, de uma beleza inigualável. Depois aquele amour fou assumiu a forma de uma profunda identificação. Fascinava-se o personagem neurótico atormentado com um maravilhoso senso de humor. Porque era capaz de rir do que acontecia comigo também, porque me oferecia um espelho para rir de mim mesma.

Não é fácil ser uma adolescente sempre envolvida em uma profunda angústia vital. Eu tendia a viver minhas obsessões como um sinal patológico que devia arrancar e desterrar de minha existência; como um fracasso, afinal, de mim mesma. Graças ao meu encontro com Woody Allen pude conferir a eles uma nova forma de dignidade. Talvez minhas frequentes visitas ao pronto-socorro, acometida de doenças imaginárias, acompanhadas muitas vezes de acusações de exagero e fingimento, ou os calafrios de angústia que às vezes percorriam meu corpo não fossem apenas a expressão de um dejeto humano, de uma inclinação doentia da qual deveria me despojar a qualquer custo. Acontece que havia alguém que tinha sido capaz de transformar essas mesmas mazelas em obra de arte. Aquilo me conferia uma esperança e uma forma de conexão comigo mesma cujo valor só consegui apreciar em toda sua magnitude com o passar do tempo.

Como um homem muito mais velho que eu, que morava do outro lado do Atlântico e a quem eu certamente nunca conheceria poderia retratar assim meus pensamentos mais inconfessáveis?

Me surpreendiam sobretudo os detalhes: como quando, em A era do rádio, o menino protagonista mergulha em um profundo pesadelo que o paralisa ao saber que as galáxias estão se separando muito rápido no Universo. Era prodigioso que aparecessem naqueles filmes detalhes íntimos da minha vida, aparentemente irrelevantes! Mas não são essas pequenezas que melhor nos definem? E como um homem muito mais velho do que eu, que morava do outro lado do Atlântico e a quem certamente nunca conheceria, podia retratar assim meus pensamentos mais inconfessáveis?

Certo dia de outubro, pouco tempo depois de chegar a Paris para estudar, com vinte anos; um dia em que estava imersa em uma crise hipocondríaca que me fazia acreditar realmente que aquelas eram minhas últimas horas de vida, saí para caminhar à beira do desespero, e encontrei por acaso um cinema em que exibiam um filme de Woody Allen que não tinha visto: Hannah e suas irmãs. Entrei e me vi diante de um personagem que teme sofrer um tumor cerebral, entra em pânico, e finalmente sai dando pulos de alegria do hospital quando dizem que não tem nada grave. Mas também com outro personagem que dá à mulher que quer seduzir um livro pedindo a ela que leia um poema específico, um poema de amor de e. e. cummings que termina dizendo: “ninguém, nem sequer a chuva / tem mãos tão pequenas”. Aqueles versos ficaram em mim e, muitos anos depois, quando meus filhos nasceram, enquanto escrevia meus próprios poemas, me acompanharam como uma verdade profunda e misteriosa. Nessa tarde sombria em Paris passei todo o filme entre o riso e o choro e, no fim, senti que Woody Allen tinha salvado minha vida. Sim, sei que parece uma afirmação excessiva, mas é o que acontece às vezes com as coisas do coração que parecem incompreensíveis. Aquela mistura de identificação humorística e poesia calou tão fundo em mim que não posso evitar, toda vez que vejo alguma cena de Hannah e suas irmãs, recordar com nostalgia que uma vez me salvou, que tornou minha existência um pouco mais suportável e mais bonita, pois se alguma coisa os momentos de angústia têm é que são pura intensidade que transborda: tudo que acontece fere nosso íntimo, como se não tivéssemos pele, seja em forma de sofrimento, seja de comoção.

Seguiram-se muitos outros filmes recheados de fantasia, como A outra, na qual uma escritora ouve através de um buraco em seu escritório a paciente de um psicanalista. O desejo de escutar, a transgressão, as palavras do outro que invadem com seus desejos sua própria mente: tudo isso girando em torno da maternidade frustrada, da criação literária e do passar do tempo. Mais uma vez Woody Allen era capaz de penetrar em minha intimidade de uma forma secreta e assombrosa.

Certa vez, ainda bem jovem, assisti uma entrevista dele na qual afirmava com ironia que ele era o fracasso da psicanálise. E pensei então que tinha de ir ao psicanalista, porque era exatamente desse tipo de fracasso que eu precisava. Não me curar, nem me entender melhor, nem ficar mais tranquila, mas fracassar daquela maneira indescritível na qual Woody Allen sempre fracassava, voltando sempre aos mesmos lugares e sendo capaz de iluminá-los cada vez de uma maneira diferente.

Em um mundo em que se valoriza o sucesso acima de tudo, entendi o poder sedutor do fracasso, a necessidade de viver na perda. Encontrei um senso de dignidade em minhas experiências mais estéreis, mais difíceis. Aprendi que é possível unir humor e melancolia; que, de fato, o humor é com frequência uma forma de melancolia. Tudo isso, ao que certamente se pode chegar de mil maneiras, tenho de agradecer a Woody Allen. Por isso, do meu presente de mulher feminista, profissional, mãe de dois filhos pequenos, faço um pedido, quase uma súplica, que acredito tão humilde quanto necessária: por favor, quero ver o último filme de Woody Allen. Espero que entendam.

Elisa Martín Ortega é professora de Literatura na Universidade Autônoma de Madri e escritora.

dez
17

“Depois do Natal”, Nana Caymmi. E não precisa dizer mais nada. Só ouvir, imaginar e flutuar. Tudo de bom!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

DO Jornal do Brasil

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a saída dos médicos cubanos do programa ‘Mais Médicos’ em razão do que considerou um “preconceito” do presidente eleito Jair Bolsonaro, segundo carta aberta publicada neste domingo (16) em Cuba.

“Eu lamento que o preconceito do novo governo contra os cubanos tenha sido mais importante que a saúde dos brasileiros que moram em comunidades mais distantes e carentes”, disse Lula na carta publicada no jornal Juventud Rebelde.

Cuba decidiu pelo retorno de 8.300 profissionais que trabalhavam no Mais Médicos, através da Organização Panamericana da Saúde, depois que Bolsonaro anunciou que mudaria as condições de contrato, o que Havana considerou inaceitável.

Macaque in the trees
Lula lamenta saída de médicos cubanos ‘por preconceito’ (Foto: Reprodução)

Lançado em 2013 pela presidente Dilma Rousseff, o programa permitiu dar assistência à população das regiões mais pobres e rurais do Brasil, principalmente graças à chegada de profissionais cubanos, que ocupavam metade dos postos do programa.

No contrato, os médicos recebiam 30% do valor desembolsado pelo Brasil, enquanto o restante ia para o orçamento da ilha, que por sua vez conservava seus salários e postos de trabalho em Cuba.

Bolsonaro exigia que os profissionais recebessem o salário integral.

Mais de 6.000 médicos já retornaram à ilha, numa ponte aérea de vários dias, e as autoridades cubanas deram por encerradas as operações de evacuação.

Da prisão em Curitiba, Lula disse que “no Brasil, os médicos de Cuba foram onde não havia médicos brasileiros. Em muitas comunidades pobres, distantes, de indígenas, que jamais tinham sido assistidas por um profissional da saúde”.

“Por isso quero dizer ao povo de Cuba: tenham muito orgulho dos seus médicos e das suas escolas de medicina. Vocês conquistaram milhões de admiradores, milhões de pessoas gratas no Brasil”, acrescentou.

Bolsonaro rebate

Pelo Twitter, Jair Bolsonaro rebateu a declaração de Lula:

? @jairbolsonaro

Diferente do que diz o corrupto preso Lula sobre o novo governo ser preconceituoso por retirar médicos cubanos do país, foi Cuba que os retirou por recusar-se a pagar salário integral a eles… Oferecemos asilo aos que querem ficar. Informações estão chegando erradas na cadeia.

 

dez
17

 
 João de Deus presoJoão de Deus, no dia 12, em Abadiânia, quando apareceu publicamente pela primeira vez após a veiculação das denúncias. Filipe Cardoso EFE
  • O médium João Teixeira de Faria, 76, conhecido como João de Deus, foi preso na tarde deste domingo no município de Abadiânia, em Goiás. Ele é acusado por mais de 300 mulheres de ter praticado crimes sexuais e era considerado foragido pelo Ministério Público de Goiás até então, já que o mandado de prisão preventiva fora expedido pela Justiça na sexta-feira e o prazo para que ele se entregasse expirou no sábado à tarde.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, a negociação ocorreu entre o advogado do médium, Alberto Toron, e o delegado geral da Polícia Civil. João de Deus, que nega as acusações, se entregou na encruzilhada de uma estrada de terra no município de Abadiânia, a 90 quilômetros de Goiânia. Ainda de acordo com a Folha, o acusado chegou a passar mal antes de se entregar. Um vídeo gravado pela colunista do jornal, Monica Bergamo, mostra o momento em que ele afirma estar se entregando. “Me entrego à justiça divina e à Justiça da terra”, disse ele, antes de entrar em um veículo. Em nota, o Ministério Público de Goiás confirmou a prisão dele.

O caso a que o médium responde veio à tona na sexta-feira da semana retrasada, quando 10 mulheres afirmaram ao Programa do Bial, da TV Globo, terem sido vítimas de abuso sexual durante seus atendimentos. No mesmo final de semana, o Ministério Público começou a investigar o caso e criou uma força-tarefa para receber novas possíveis denúncias. Ao longo da semana, mais de 300 mulheres buscaram o MP de diferentes Estados se dizendo vítimas dele. As denúncias vieram de diferentes regiões do país e de ao menos seis países. “Os promotores e promotoras informam que os trabalhos da Força-Tarefa seguem normalmente nos próximos dias, no intuito de continuar realizando as oitivas das vítimas e produzir as denúncias a serem oferecidas”, afirmou a nota do MP de Goiás.

dez
17

Postado em 17-12-2018 00:20

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 17-12-2018 00:20

Do Jornal do Brasil

A Polícia Federal (PF) divulgou na tarde deste domingo  (16) retratos com as principais possibilidades de disfarce que poderiam ser usados pelo italiano Cesare Battisti, que tem mandado de prisão expedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

“Qualquer informação sobre o foragido pode ser fornecida pelo telefone (61) 2024-9180 ou pelo e-mail plantao.dat@dpf.gov.br. O anonimato é totalmente resguardado”, diz a PF.

Macaque in the trees
Possíveis disfarces que podem ser usados por Cesare Battisti (Foto: Polícia Federal)

Na sexta-feira (14), o presidente Michel Temer assinou a extradição de Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro homicídios cometidos nos anos 1970, quando integrava o grupo Proletariados Armados pelo Comunismo.

Ele chegou em 2004 ao Brasil, onde foi preso três anos depois. Battisti foi solto da Penitenciária da Papuda, em Brasília, em 9 de junho 2011, e voltou a ser preso em outubro do ano passado na cidade de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, perto da fronteira do Brasil com a Bolívia. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), ele tentou sair do país ilegalmente com cerca de R$ 25 mil em moeda estrangeira. Após a prisão, Battisti teve a detenção substituída por medidas cautelares.

Ontem (15), o governo da Itália enviou carta a Temer agradecendo a decisão. “Senhor presidente, quero expressar meu mais sincero agradecimento pela decisão de Vossa Excelência sobre o caso do cidadão italiano Cesare Battisti, definitivamente condenado pela Justiça italiana por crimes gravíssimos e que até hoje se subtraiu à execução das relativas sentenças”, diz a mensagem, assinada pelo presidente italiano Sergio Mattarella.

dez
17

Postado em 17-12-2018 00:17

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 17-12-2018 00:17


 

 Lute, no jornal

 

dez
17

Postado em 17-12-2018 00:12

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 17-12-2018 00:12

‘Esquema rachid’ é comum nas casas legislativas

 

O “esquema rachid”, em que funcionários de gabinetes são instados a devolver uma parte do salário que recebem como contrapartida à própria contratação, é uma prática comum nas casas legislativas. Apenas no último ano, quatro parlamentares foram denunciados ao Supremo pela PGR sob essa suspeita.

Diz O Globo:

“Também foram denunciados pela PGR em casos semelhantes os deputados Adalberto Cavalcanti (Avante-PE) e Érika Kokay (PT-DF) e o senador Sérgio Petecão (PSD-AC). No caso de Adalberto, cuja denúncia foi apresentada ao STF em abril deste ano, a PGR aponta que ele e sua secretária parlamentar nomearam uma funcionária fantasma e desviaram cerca de R$ 100 mil do salário que esta deveria ter recebido, para bancar despesas deles próprios (…).

No caso de Érika Kokay, os fatos se referem ao período em que ela era deputada distrital na Câmara do DF. A ex-funcionária Vânia Gomes afirmou em depoimento que o chefe de gabinete da deputada lhe convidou para uma nova função, com acréscimo salarial, mas deixou claro que deveria haver devolução de parte da diferença salarial. A quebra do sigilo bancário confirmou repasses de ao menos R$ 13 mil da assessora para a conta de Érika Kokay”.

 Artigo publicado na Tribuna da Bahia, nesta quinta-feira, 13/12/18. Bahia em Pauta reproduz nesta edição dominical (16/12) e recomenda aos seus leitores.

 Resultado de imagem para Joaci Goes na Tribuna da Bahia

ARTIGO/OPINIÃO POLÍTICA

 

Corrupção – Conceitos e Reflexões

Joaci Goes

 

Para a querida amiga e grande médica Dra. Nancy Silva, que me salvou a vida.

Na última terça-feira, a UNICORP, em parceria com a EMAB – Escola de Magistrados da Bahia, realizou conferência proferida pelo Doutor em Filosofia Alexandre Sérgio da Rocha, sobre o tema que nomeia o presente artigo. O evento foi regido pelo Desembargador Gesivaldo Britto, presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, e contou com a presença da cúpula do judiciário baiano e personalidades de relevo de nosso mundo social. Na sequência, o palestrante, que ora reside nos Estados Unidos, autografou o livro de sua autoria que deu título à bem elaborada palestra, em linguagem a um só tempo erudita, convincente e didática.

Falar de corrupção no Brasil de nossos dias, no âmbito dos três poderes, é como acender um fósforo num paiol de pólvora, de tal modo a sociedade brasileira está impregnada do vírus desse mal que corrói o seu corpo e a sua alma, a ponto de haver quem suponha que esse câncro passou a ser um mal endêmico-crônico, um componente inerradicável de nossa vida coletiva.

O expositor saiu-se muito bem de sua incumbência, na medida em que caminhou sem se ferir sobre o fio da navalha, evitando fulanizar a questão, não citando pessoas físicas, partidos políticos, e entidades várias, e imprimindo ao seu discurso um caráter eminentemente teórico, sem prejuízo, no entanto, da aplicação mental, por cada um dos ouvintes, dos princípios expostos aos casos concretos de nossa crítica conjuntura moral.
Na mais apertada das sínteses, a corrupção se inicia quando o agente público, desviando-se de sua condição de servidor dos direitos e necessidades legítimas do cidadão, em função de quem existe, passa a agir fora da bitola do imperioso dever de observar o cumprimento da lei, dos princípios da justiça, de que o reconhecimento do mérito é parcela ponderável.

Desse mínimo desvio inicial, a um segundo e a um terceiro, na satisfação de seus pequenos caprichos e apetites inferiores, o agente público pode avançar para desvios abissais, como os que temos testemunhado em nosso País, que a cada dia mais escandaliza o mundo, com práticas que aberram do que se conhece de mais escabroso no espaço e no tempo.

Por oportuna coincidência, também na última terça, esta Tribuna da Bahia publicou imperdível artigo do festejado jornalista, professor e advogado Luiz Holanda com o título que define o seu conteúdo de O indulto da corrupção, em que vergasta, com argumentos irrespondíveis, o risco de abortamento do papel saneador da Operação Lava Jato derivado do proposto indulto presidencial natalino, ora em apreciação na Suprema Corte. Observe-se que, também nesta Tribuna, o respeitado político gaúcho Pedro Simon, um dos decanos da política nacional, declarou, que a continuidade da Operação Lava Jato constitui, isoladamente, o episódio mais importante na história do Brasil, como fator de aprimoramento de nossa vida social, econômica e política.

Na linha maldita dos eventos que enodoam a imagem do Brasil, mundo afora, o caso do médium-curandeiro João de Deus – na pia batismal de Cachoeira de Goiás, em 1942, João Teixeira de Farias -, surge para fazer dos crimes praticados pelo médico paulista Roger Abdelmassih parecerem traquinagens de adolescentes em piquenique de fim de semana. Com efeito, os desvios morais atribuídos por centenas de mulheres – que podem se tornar milhares – ao suposto demiurgo goiano parecem não encontrar rivais na história ou na geografia. Como agravante, se é que pode haver agravantes para tamanhas barbaridades, o falaz simoníaco ainda agregou a palavra Deus ao próprio nome.
Na mesma linha defensiva de criminosos contumazes de alto coturno, tão conhecidos do povo brasileiro, o denunciado guru de Abadiânia vem declarando inocência. Só falta dizer que foi “um amigo meu” quem praticou as infamantes diabruras a ele injustamente atribuídas, como “acusações seletivas”.

Joaci Góes, escritor, presidente eleito da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia.

 

“Sodade Matadera”, Dorival Caymmi: “Ela era bonitinha, ela era engraçadinha, eu chamava de coisinha, mas pro povo dela era Mariá”. Imenso seu Dorival !!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

dez
16

Postado em 16-12-2018 00:12

Arquivado em ( Artigos) por vitor em 16-12-2018 00:12

 
Tom C. Avendaño
Susi, uma cuidadora de 33 anos, leva os filhos, Vitor, de 14, Wesley e Diogo, ambos de 10, a sua primeira visita ao McDonald's de Cidade Tiradentes.
Susi, uma cuidadora de 33 anos, leva os filhos, Vitor, de 14, Wesley e Diogo, ambos de 10, a sua primeira visita ao McDonald’s de Cidade Tiradentes. TONI PIRES

O entorno do supermercado Negreiros é o centro nevrálgico de Cidade Tiradentes, um bairro de casas simples na periferia de São Paulo. É ali que ocorre a principal atividade social desse desolado bairro dormitório: fazer compras, passear pelo pátio que existe antes da entrada do mercado e se deixar ver pelos outros moradores que também dão voltas entre os seis quiosques ali instalados. Um serve churrasquinho; outro é um cabeleireiro cujo corte infantil custa15 reais; um terceiro, um carrinho que vende milho, refrigerante e o onipresente pão de queijo; há ainda uma banca de consertos de celulares e um chaveiro.

E depois está o sexto quiosque. O que chama a atenção porque é branco e reluzente como algo puramente novo. E que sempre tem fila desde sua inauguração, em 12 de novembro, e clientes que tiram selfies antes de pegar a mercadoria com grande cerimônia. O dos sorvetes caros. O McDonald’s.

O McDonald's de Cidade Tiradentes na sexta-feira 30 de novembro
O McDonald’s de Cidade Tiradentes na sexta-feira 30 de novembro TONI PIRES
 “Nunca havia visto nada assim”, se espanta Junior, que faz cópias de chaves. “Tenho 26 anos e trabalho aqui desde os dez, quando meu pai me trazia. E nunca vi um lugar que tivesse filas desde que abriu. Nunca. Em 26 anos”, acrescenta, apontando para o bem conhecido M amarelo: “E você sabe por que eles vêm, não? Pelo M. Aqui sempre existiram sorvetes, e mais baratos. Mas as pessoas vêm pelo M”. Eles chegam a custar entre 8, 9 reais.Um pequeno quiosque de globalização abre no grande Brasil periférico

Essa é a notícia: o McDonald´s abriu um quiosque de sorvetes em um modesto bairro na periferia de São Paulo e é um sucesso. À primeira vista, não há nada além disso. Mas esse sucesso é, além de inesperado, ilustrativo de uma realidade bem brasileira. Cidade Tiradentes é um lugar sem, no mínimo, as franquias que fazem sucesso em tantas cidades grandes. Os postos de gasolina não são Shell e Petrobras, são Boxter; as pizzarias são Super Star e não Domino’s. Assim é esse enorme bairro de 211.501 moradores, surgido nos anos setenta para alojar os operários que sustentavam o brutal crescimento de uma outra São Paulo, distante. Um lugar a 40 minutos de carro da última estação do metrô. Esse lado B da cidade mais rica do país é, como o Brasil, enorme em extensão e se sente pequeno em reconhecimento.

O que acontece em Cidade Tiradentes ocorre no restante do Brasil, um país enorme em extensão e desigualdade, onde boa parte do capital cultural e comercial se concentra em poucos quilômetros quadrados de poucas cidades. Essas regiões não se diferenciam muito de certas ruas de Londres e Paris. Mas depois estão as outras, os satélites que tornam possíveis essas cidades. No Rio de Janeiro, 46% do lazer está em três bairros (o centro, Botafogo e Barra da Tijuca). A cidade de São Paulo, capital cultural e econômica do país, tem 96 distritos: em 60 não há museus e em 40 não existem cinemas. Salvador, a terceira grande cidade do país, também está cercada por inúmeros bairros periféricos que ainda aguardam ser homologados pela globalização.

Junior, 26 anos de idade e 16 fazendo cópias de chaves ante o que agora é o McDonald's de Cidade Tiradentes
Junior, 26 anos de idade e 16 fazendo cópias de chaves ante o que agora é o McDonald’s de Cidade Tiradentes TONI PIRES
 Todo lazer fica longe

Por isso esse minúsculo quiosque coroado por um grande M amarelo significa tanto em Cidade Tiradentes. “As crianças daqui veem que os pais saem às quatro, cinco da manhã, para trabalhar em lugares que estão a uma hora e meia, duas horas de suas casas”, diz Mariana Pimentel, de 28 anos, professora de inglês na região. “Toda atividade de lazer fica longe. Se você quer ir ao cinema e a um shopping, é preciso pegar um ônibus, pagar quatro reais de ida e mais quatro de volta, que por aqui não é pouco dinheiro, e levar uma hora no trajeto. Se você está isolado do mundo, porque compraria algo pela Amazon? Aqui o correio mal chega.”

Narissa, de 14 anos, sua avó María Elena e Braian, de sete, depois de sua primeira visita ao quiosco da franquia o 30 de novembro
Narissa, de 14 anos, sua avó María Elena e Braian, de sete, depois de sua primeira visita ao quiosco da franquia o 30 de novembro TONI PIRES
 Mas o McDonald’s chegou. Não para servir hambúrgueres e sim em um quiosque de 10,3 metros quadrados que só vende sorvete; uma modestíssima parte de uma expansão por toda São Paulo em que a multinacional investiu 1,25 bilhão de reais.

Pela primeira vez na história de Cidade Tiradentes há em suas ruas algo que se encontra na avenida Paulista, no aeroporto internacional e na Quinta Avenida de Nova York. “Quando estavam instalando o quiosque, havia uma comoção, não só em minhas classes como nas redes sociais. O que irão colocar? O que será?”, diz Mariana. “Quando viram o M do McDonald’s meus alunos enlouqueceram. As pessoas que moram perto da franquia não têm noção do que significa às pessoas que precisam andar quilômetros para ir a um. Eu morei no estrangeiro, em Paris, e sei que o McDonald’s é uma coisa barata que você come quando não tem dinheiro. Aqui é um luxo. Ir a um McDonald’s é um evento, uma janela ao exterior.

Se você está pensando (com razão) na bomba calórica que representam esses McFlurries, e sobre as consequências nefastas da globalização, parabéns: certamente você pertence, no mínimo, a algum tipo de classe média. Há outra mentalidade, fruto da carência, em que isso é secundário. Em algumas horas de uma sexta-feira, o EL PAÍS viu dezenas de clientes que nunca haviam experimentado um McDonald’s em sua vida. Susi, de 33 anos, levou seus filhos Vitor de 14 e Wesley e Diogo, de 10. “É sexta-feira, queríamos fazer algo gostoso e decidimos vir aqui”, diz. Pagam mais do que o dobro do que os sorvestes nas bancas ao lado.

Osmar, de 37 anos, que trabalha no supermercado Negreiros para a empresa BRF, se emociona: “Eu trabalhei quatro anos em um McDonald’s no centro de São Paulo: aprendi tudo lá, é uma multinacional, um negócio muito sério. Não se pode perder tempo”, diz com reverência entre lambidas em seu sorvete. “Nunca, nunca imaginei que teria um desses em minha casa”, afirma olhando com orgulho o quiosque.

Uma criança prova um gelado uma manhã de novembro em Cidade Tiradentes
Uma criança prova um gelado uma manhã de novembro em Cidade Tiradentes TONI PIRES
 

Narissa, de 14 anos, conseguiu arrastar sua avó, Maria Elena, de 62, e Braian, de 7, para experimentar. “Não gosto de comer fora, mas é preciso vir aqui e tirar a foto”, resmunga a mulher, que mora há 26 anos no bairro.

Nada mudou muito em Cidade Tiradentes desde a chegada do McDonald’s. Continua sendo um bairro onde a renda média é de 864 reais; que tem o segundo maior índice de gravidez na adolescência da cidade, e um dos menores índices de árvores nas ruas; onde a expectativa de vida é menor do que nos outros bairros (58,5 anos, contra 81 dos Jardins, a área mais rica). Não há museus e cinemas. Vivem no nono país com mais McDonald’s do mundo, e em uma cidade que tem 270 quiosques de sorvetes. E agora um deles é seu. De certa forma, tudo mudou.

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